Vida com filhos

A vida é eterna transição. Quem sabe acompanhar essa fluidez constante passa por ela mais leve. Já diriam os budistas, não há sofrimento que não tenha fim, porém também não há felicidade que dure para sempre. Sabendo disso, temos força para atravessar o sofrimento e aproveitamos mais intensamente os momentos felizes, conscientes de que logo findarão.

Porém, algumas dessas percepções são mais suaves – aprender a tocar um instrumento, por exemplo, ou o fim de um relacionamento que se deteriora aos poucos – e outras mais abruptas, como o nascimento e a morte.

Independente de serem boas ou ruins, as mudanças abruptas sempre reverberam intensamente no corpo e na mente. Daí as agruras do puerpério, a depressão pós-parto e a crise no relacionamento, coisas difíceis de entender quando se acredita que o nascimento de um filho é o evento mais feliz da vida dos pais. A verdade é que uma coisa não exclui a outra.

“Mudanças bruscas e não elaboradas podem mexer com nossos recursos emocionais, gerando estresse, acompanhados muitas vezes de desmotivação, infelicidade e alterações disfuncionais de acordo com sua gravidade e intensidade interpretativa pessoal”, explica a psicóloga Soraya Rodrigues de Aragão. Para ela, “mesmo as mudanças positivas solicitam um processo adaptativo por parte do indivíduo e podem ser também geradoras de estresse”.

A chegada do primeiro filho, principalmente para a mulher, marca o fim da vida que ela tinha  – da privacidade do corpo, do tempo que tinha para si, do trabalho (mais da metade é mandada embora ou decide não retornar ao mercado formal) – e de quem ela era – surgem novas prioridades, interesses, emoções.  Neste caso, a psicóloga recomenda postura adaptativa para o enfrentamento da nova realidade que se apresenta, no intuito de trazer de volta o equilíbrio, o bem-estar e a qualidade de vida perdida. “Durante o período de transição acontece uma espécie de homeostase emocional”, compara Soraya.

William Bridges , consultor especializado em mudanças e fases de transição e autor do livros Managing Transition (Gerenciando Transições, sem lançamento no Brasil), acredita que o mundo moderno carece de rituais de passagem. Ele escreve: “Nos antigos rituais, as pessoas eram levadas para alguma área selvagem – uma floresta, um campo nevado, o cume de uma montanha, uma área desértica – onde elas podiam experimentar a si mesmas e o mundo fora do alcance do sistema de símbolos com os quais eles conviviam. Lá fora (e também fora da estrutura do tempo social), elas eram expostas às visões e vozes que o mundo cotidiano filtrava. (…)Esse tempo era geralmente utilizado pelos mais velhos da tribo para transmitir instruções sobre o mundo espiritual ou além da realidade diária. Essas eram compreensões do mundo e da vida que eram mais apropriadas para o novo estágio da vida do que eram as antigas percepções. Com base nessas descobertas e um novo senso de identidade obtido durante o período nas áreas selvagens, as pessoas em transição então retornavam para a tribo como pessoas ‘novas’ e ‘renovadas’ – com novos conhecimentos, uma nova visão da vida e uma nova identidade”.

Na sociedade contemporânea, essa passagem é feita publicamente, sem tempo para assimilar, com pouco ou sem apoio, sob o crivo da família, dos amigos e dos chefes, que cobram presença, aparência, eficiência, velocidade e funcionalismo capital mesmo de quem está no olho do furacão. “Desmame, coloque logo na escola, arranje uma babá, volte a ‘ser mulher’ (mãe não é mulher?), emagreça, seja produtiva ganhando dinheiro” – diz o mundo. A resposta positiva a tanta pressão foi o surgimento de tribos urbanas, grupos de pessoas que viveram situações semelhantes, para que, como antigamente, os mais experientes possam acolher e orientar os novatos, e que a identificação entre os pares traga alívio e conforto até que se chegue do outro lado da travessia.

Após o nascimento da primeira filha, a relações públicas Sefirah de Araújo Ambrizi encontrou a sua tribo num co-working familiar onde ela podia trabalhar ao lado de outras mães e pais, e não sozinha em casa, enquanto a menina de um ano brinca na companhia de outras crianças. Na hora do almoço e nos intervalos as duas ficam juntas. “Eu acredito que estar perto da Helena nessa fase é essencial para a formação dela como pessoa, mas ao mesmo tempo não queria parar de trabalhar. Consegui fazer os dois. Muita gente precisa engolir a separação antes do que gostaria, fico feliz de ter esse privilégio”- ela conta – “Ter esta opção foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu me sinto motivada como mãe e como profissional”.

Recentemente a convicção de Sefirah foi testada. Helena foi chamada para uma creche pública considerada modelo. Atualizada em pedagogia – a diretora visitou diversos países para estudar seus métodos de ensino –, espaçosa, consciente em relação à alimentação saudável e sem viés religioso ou político e, como toda escola pública, gratuita. Perfeita. No dia da adaptação, mãe e filha estavam confiantes. Mas a experiência não fez jus à expectativa. “Ao ver as crianças chorando, aquelas cujas mães não puderam fazer a adaptação presencialmente, as que realmente precisavam da creche porque os pais trabalhavam fora, fiquei triste por elas, mas feliz por ter o privilégio de fazer diferente”, analisa a assessora, e conclui: “Estou em paz com a minha escolha”.

Num mundo onde tempo é dinheiro, Sefirah faz uma análise que mostra seu verdadeiro valor. “Sei que no futuro, poderia olhar para trás e me arrepender de ter colocado ela na creche tão cedo. Mas de escolher a Casa de Viver, jamais. Meu sonho é que a gente tenha muitas mães com essa opção e mais Casas espalhadas por SP, pelo Brasil. Se as empresas e pessoas soubessem o quanto isso é importante… infelizmente ainda é algo intangível.”

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