Centro de Montpellier

Entre 2009 e 2010, Alessandra Ribeiro passou seis meses na França, fazendo parte de seu doutorado em psicanálise em uma universidade em Paris. Em 2011, voltou para fazer uma pesquisa de pós-doutorado também em Paris, conheceu o atual companheiro e com ele, em 2014, se instalou definitivamente no sul da França, perto da fronteira com a Espanha, em uma cidade próxima a Montpellier.

A filha Clara nasceu em 2013,quando ela ainda morava em Paris e ele no sul, separados por uma viagem de 5 horas. “Até por conta disso, e também por uma escolha minha de estar com minha filha no seu começo de vida”, explica Alessandra, “não trabalhei desde o final da pesquisa de pós-doc, em 2013, um pouco antes de ela nascer até começo de 2015, quando ela começou a frequentar uma creche e eu comecei a me interessar novamente pelo mundo do trabalho. Retomei o consultório e, desde então, atendo adolescentes e adultos que se interessem por fazer uma análise”.

Como acontece com mulheres no mundo todo, sua nova condição de mãe a inspirou a buscar algo no trabalho que fizesse sentido naquele momento da vida. A solução encontrada foi atender grupos de famílias e discutir as dificuldades que enfrentam no cotidiano com os filhos. Esse trabalho terapêutico tornou-se tema do blog Barriga de Bebê, criado durante a primeira gravidez (hoje já são dois filhos), que também fala sobre a entrada no mundo da maternidade e suas descobertas.

A segunda gravidez aconteceu pouco tempo depois do retorno ao trabalho, e dessa vez a decisão foi que não haveria “condições emocionais” para enfrentar novamente um afastamento e se dedicar exclusivamente aos filhos. Nas palavras de Alessandra: “Para alguém que sempre foi uma workaholic convicta, dois anos sem trabalhar, mesmo que por escolha, foi uma experiência maravilhosa e também enlouquecedora”. Dessa vez apenas alguns poucos pacientes foram aceitos ao longo da gravidez e os atendimentos foram interrompidos por apenas três meses após o nascimento de Noah. Ao retornar, os horários foram organizados de forma a haver longos intervalos entre as sessões. “Utilizo esse tempo para amamentar, trocar fralda, brincar com ele… Tem sido um bom compromisso entre minha necessidade de trabalhar e meu desejo de cuidar dele, de estar presente para ele”.

A psicanalista sabe que mesmo na França, onde a jornada de trabalho é de cerca de 35 horas por semana, tanto a flexibilidade de horários que sua profissão permite quanto poder atender de casa são privilégios. “Na verdade isso (o consultório domiciliar) é algo muito comum aqui na França, já que alugar outro espaço de trabalho custa muito caro”, explica. Ela também percebeu, durante a gravidez, que se voltasse ao Brasil com o companheiro, ele levaria um bom tempo para ter autorização para trabalhar no Brasil (ele é médico, precisa validar diploma) e, ainda, para falar minimamente o português a ponto de poder trabalhar (ele é francês). “Nesse meio tempo, eu teria que muito rapidamente voltar a trabalhar como uma louca, umas dez horas por dia, para ganhar o suficiente para manter a nós todos”, conta, “e como ficaria essa intenção de estar presente justamente no começo da vida da minha filha e do meu filho, que é quando eles mais precisam? Estaria no meu país, perto da família e dos amigos e tudo de reconfortante que isso tem e por outro lado, sacrificaria justamente o que julgo o mais precioso, que é poder acompanhar meus filhos crescerem”.

No Brasil, segundo dados do IBGE, cerca de 15% das mulheres dizem trabalhar “por  conta própria” , ou seja, não trabalham em empresas, não são empregadoras nem trabalhadoras domésticas. Mas isso não quer dizer que tenham escolha sobre o horário que fazem, nem segurança financeira para optar por trabalhar menos.

Assim, mesmo em tempos sóbrios, com xenofobia, racismo e terrorismo evidentes na França, Alessandra concluiu que teria mais qualidade de vida por lá. “Eu não moraria com meus filhos pequenos no Brasil, especialmente em São Paulo, por muitos motivos que talvez eu nem precise enumerar: a violência, a escassez de opções de lazer que não sejam associadas ao consumo e o custo de vida absurdo para quem tem filhos. Ter que pagar escola, plano de saúde, tudo o que é básico para ter acesso a serviços com um mínimo de qualidade? Isso é absurdo”.

Para compensar o pouco contato que os pequenos têm com a família materna Alessandra faz questão de conversar em português com eles, ensinar a cultura do país e não descarta passar um período por aqui quando eles forem maiores.

Este é o primeiro de uma série de textos que publicaremos sobre ser mãe na França. Na semana que vem, saiba mais sobre como o sistema de saúde francês encara a gestação e o parto.

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