7a Semana Mundial do Brincar

A primeira edição da Semana Mundial do Brincar aconteceu em 2010, concomitantemente com o Ato Público “Deixem-me brincar – não às crianças de 5 anos no Ensino Fundamental”. Os eventos, idealizados pela Aliança Pela Infância do Brasil (a organização foi criada na Inglaterra e existe em diversos outros países), eram um claro alerta para o encurtamento da infância que vinha sendo imposto social e politicamente às crianças brasileiras.  Como explicou Giovana Barbosa de Souza em entrevista à Casa de Viver, “a sociedade capitalista tal como é hoje faz dois grandes desserviços à escola: estimula a competição entre os alunos (e os pais) e transforma o conhecimento em bem de consumo, ou seja, os pais esperam que pelo dinheiro ali investido recebam em troca resultados visíveis. Falando de pré-escola isso quer dizer alfabetização precoce, noções de matemática, informática, enfim, que a criança tenha o mais cedo possível todo o tipo de ‘conhecimento’ que a prepare para competir no mundo corporativo mais tarde, ignorando as etapas naturais de desenvolvimento e a variação de tempo que ocorre de uma criança para outra”.

A Aliança Pela Infância têm suas diretrizes embasadas na Antroposofia e portanto acredita que no primeiro setênio (do nascimento aos seis anos) de vida a criança deve ser livre para descobrir a si mesma, explorar o mundo ao seu redor e entender como se colocar e se relacionar com ele. Essa teoria é corroborada por diversos estudos científicos feitos a partir do final dos anos 90 e também por filosofias pedagógicas como Waldorf, Reggio Emilia e Pikler.  Todas apontam que, para se desenvolver de forma sã física e mentalmente a criança precisa de apenas duas coisas: o cuidado de um adulto amoroso e brincar livre.

Mas afinal, o que é brincar livre?

A 7ª Semana Mundial do Brincar aconteceu semana passada (21 a 28 de maio). Aqui na Casa de Viver organizamos atividades para os pais e para as crianças voltadas para a familiarização e compreensão do que é, afinal, brincar livre. Foram elas: Casa Aberta para Brincar em Família, em parceria com o Massacuca, Visita à Casa Modernista com brincar livre e rodas de conversa sobre as emoções dos pequenos refletidas nos jogos de tabuleiro, o lúdico na vida adulta e Brincar Livre em oposição ao brincar dirigido.

Foi maravilhoso ver as crianças ocupando primeiro a nossa Casa e depois a Casa Modernista, que é nossa vizinha, sem compromisso nenhum além de brincar da forma que considerassem mais interessante. Instruímos os pais a deixarem que elas comandassem as atividades, e que interferissem o mínimo possível. Alguns até estranham, mas com o tempo entendem que a criança não precisa de ajuda para fazer o que lhe é mais natural, e que “o jeito certo” de fazer alguma coisa (como um desenho, por exemplo) é apenas uma das muitas maneiras de fazê-la.

As dúvidas e histórias dos pais deram um caldo muito rico às rodas de conversa. No primeiro dia o ludoterapeuta Fernando Katsuyoshi falou sobre o “círculo mágico” que é formado em torno da criança quando ela entra em território lúdico. “A criança nunca está brincando sozinha. Você a vê com um carrinho ou montando blocos e dentro daquele espaço há muito mais acontecendo, há um mundo completo”.  Fernando citou o biólogo Marc Bekoff com a frase “brincar é se preparar para o inesperado” e deu vários exemplos de como a fantasia se torna, no futuro, repertório para lidar com a realidade.  Também alertou para o excesso de estímulo dos vídeo games (principalmente em crianças de pouca idade), explicando que o tratamento para o vício no jogo é idêntico ao do vício químico: abstinência e  um padrinho para conduzir à vida social novamente.

Depois foi a vez da designer, facilitadora de processos de desenvolvimento por meio da arte e palhaça Fernanda Resende conduzir uma surpreendente conversa sobre o lúdico na vida adulta. O questionamento era: como ter filhos espontâneos se nós mesmos perdemos a espontaneidade no dia a dia. Fernanda usou sua própria experiência de libertação através da pantomima para exemplificar como podemos nos abrir ao desconhecido e à nossa sombra, deixando de lado a culpa. O tema da presença, que já havia surgido na roda anterior, voltou à baila e ficou claro que só consegue se livrar das amarras e se relacionar com as pessoas ao seu redor quem foca no momento presente. Para Fernanda, isso vale tanto para a vida quanto para o relacionamento com seus filhos. “Enquanto você estiver pensando em como as coisas deveriam ser, não vai conseguir enxergá-las – e aproveitá-las como elas são”, disse. Para a facilitadora, a vida fica mais leve quando conseguimos rir do que consideramos defeitos.

Fechando o ciclo de conversas tivemos uma discussão riquíssima sobre o Brincar Livre em si com a psicóloga e educadora Helena Kaulich.  Ela trouxe suas experiências com educação consciente, educação viva e diversas pedagogias para demonstrar a importância da autonomia no desenvolvimento das crianças, tanto na parte motora – não forçando que role, sente, engatinhe, ande ou desfralde antes da hora – quanto na cognitiva, e o quanto as duas estão inter-relacionadas. “A simples conquista de conseguir fazer um movimento novo, e ter as ferramentas para desfazê-lo, já ensina à criança que através da perseverança ela obtém resultados”, contou Helena, enquanto dava exemplos da pedagogia Pikler, “e o mesmo vale para o brincar – a criança precisa descobrir seu próprio caminho, sem interferência”. Helena reforçou que essa “criança livre” precisa ser acompanhada por um cuidador “respeitoso, delicado, sutil e neutro em relação a julgamentos”.

O evento foi encerrado com uma citação do educador Rudolf Steiner: “Se a criança é capaz de se entregar por inteiro ao mundo ao seu redor em sua brincadeira, então em sua vida adulta será capaz de se dedicar com confi­ança e força a serviço do mundo”.

Deixe Seu Comentário

Loading Facebook Comments ...

Deixe uma resposta