Como a tecnologia afeta as novas gerações

Jornal inglês publica matéria com a opinião de ex-funcionários da Apple, Facebook, Snapchat e Instagram sobre o assunto

Você já parou para pensar no impacto que a tecnologia pode ter na vida do seu filho? Não apenas no quesito de atividade física,  afinal crianças que passam mais tempo em frente a telas brincam menos ativamente. Nem no quesito de visão, pois crianças que passam muito tempo vendo coisas de perto não treinam os olhos para envergar de longe.  Estamos falando de como tablets, smartphones, aplicativos e principalmente as redes sociais vão influenciar psicologicamente as próximas gerações, que não saberão como era a vida antes delas.

O jornal britânico The Guardian publicou, nesse final de semana, uma matéria estarrecedora com declarações de desenvolvedores de tecnologia que passaram por empresas como Google, Apple e Facebook e o aviso dado por todos é o mesmo: o sistema de publicidade das redes sociais como é usado hoje tem a capacidade de, sem que percebamos, acabar com nosso livre arbítrio.

Segundo a matéria, pesquisas mostram que uma pessoa comum toca a tela de seu smartphone 2,617 vezes por dia. Há uma preocupação crescente de que, além de viciar seus usuários, a tecnologia contribua para algo chamado “atenção parcial constante”, que limita severamente a capacidade de foco e possivelmente diminui o QI. Um estudo específico mostrou que a simples proximidade com um smartphone afete a capacidade cognitiva de seu dono – mesmo que ele esteja desligado.

Tristan Harris, 33, ex-empregado do Google e hoje crítico da indústria tecnológica, garantiu: “nossas escolhas não são tão livres quanto achamos que são”.  Ele estudou como o LinkedIn explora a necessidade de reciprocidade social para ampliar sua rede; como o YouTube e o Netflix passam automaticamente outros vídeos e episódios sem que os usuários decidam se querem ou não continuar vendo; como o Snapchat criou uma plataforma viciante que encoraja adolescentes a se manterem em comunicação constante.

Um relatório interno do Facebook que vazou este ano mostra que a rede consegue identificar quando seus usuários se sentem “inseguros”, “inúteis” e “carecendo de autoconfiança”, informações usadas para manipular, por exemplo, quando eles receberão likes e outras notificações.  Esta ferramenta explora a mesma fraqueza psicológica usada por jogos de azar: recompensa variável. Quando a pessoa toca no ícone de notificação ela não sabe se haverá algum e-mail interessante, uma avalanche de likes ou apenas um anúncio. A possibilidade de ganho ou perda é a chave do vício, e este vício é a base da chamada “economia de atenção”, um sistema econômico no qual o sucesso de um produto é medido por cliques, likes e interação via redes sociais.

Chris Marcellino, um dos dois inventores que criaram os ícones de notificação para a Apple, deixou a empresa anos atrás para se tornar um neurocirurgião. Na entrevista ao Guardian, ele disse não ser especialista em vício, mas que teve treinamento médico suficiente para saber que a tecnologia como é usada hoje afeta as mesmas áreas do cérebro que o jogo e o uso de drogas. “São os mesmos circuitos que fazem as pessoas buscarem comida, conforto, calor e sexo”, disse, explicando que é o sistema de recompensa que ativa a liberação de dopanima no cérebro.

O ex-estrategista do Google James Williams, também entrevistado pelo Guardian, disse considerar a indústria tecnológica “a maior, mais padronizada e mais centralizada forma de controle de atenção na história da humanidade”, e lembra que 87% das pessoas acordam e vão dormir com seus smartphones na mão.  Ele analisa que, se a dinâmica da “economia de atenção” funciona a partir do momento em que a vontade racional é superada pela recompensa instantânea, a democracia em si é que está em jogo.
A matéria observa, ainda, que os filhos destes ex-empregados das grandes empresas de tecnologia estudam, todos, em escolas nas quais o uso de computadores, tablets e smartphones é restrito e ressalta a importância de que se discuta este assunto agora, uma vez que somos a última geração que lembrará de um mundo sem internet.

Leia a matéria completa, em inglês, no site do The Guardian: https://www.theguardian.com/technology/2017/oct/05/smartphone-addiction-silicon-valley-dystopia

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