Desfralde pela Abordagem Pikler

Esqueça a “idade certa”. Esqueça o condicionamento de horário, primeiro o dia e depois a noite,“como desfraldar meninos” e “como desfraldar meninas” (sim, em pleno 2016 ainda existe essa informação na internet). Esqueça tudo o que você leu por aí sobre desfralde. Com um processo muito mais simples que o tradicional, a abordagem Pikler mostra que para tirar as fraldas sem acidentes, broncas ou retrocessos basta respeitar – mas respeitar de verdade – o tempo do seu filho.

Emmi Pikler (1902-1984) era uma pediatra húngara que desenvolveu diversas teorias sobre criação e desenvolvimento infantil, aplicando-as na prática no orfanato que gerenciava. Ela foi pioneira no uso de cuidados com empatia e da observação ativa, que permite que bebês e crianças pequenas descubram o mundo, socializem e se desenvolvam com espontaneidade, autonomia e independência.

Isso quer dizer, resumidamente, que o cuidador (seja ele pai, mãe, familiar ou profissional) deve apenas observar atentamente a criança enquanto ela explora ambientes, testa possibilidades e chega a suas próprias conclusões. Nada deve ser induzido, exigido ou condicionado. “A criança mal começa a rolar e queremos que ela sente, ela senta e queremos  que engatinhe, depois  que ande, que  fale, soletre, escreva, como se houvesse algum tipo de corrida. Isso gera um sentimento de que o que ela faz nunca é o suficiente”, analisa Leila Costa, do Espaço Minhoca. Leila é pedagoga, mestre em Educação pela Unicamp, especialista em educação de 0 a 3 anos pelo Instituto Singularidades, cursou a formação inicial da Abordagem Pikler em Budapeste – Hungria, no Instituto Pikler, é professora universitária e coordena quatro grupos de estudos sobre bebês.

Como isso se aplica ao desfralde? Basicamente, quando corpo e cérebro do bebê estiverem prontos para realizar uma tarefa, ele a realizará. Naturalmente. Leila conta que os picklerianos acreditam que a fralda só deve sair quando houver controle dos esfíncteres, um processo biológico que não pode ser imposto pela cultura. “Não dá para a criança ter autonomia de dia e não à noite, por exemplo, isso dá um nó na cabeça dela. Por isso a fralda só deve ir – definitivamente – quando a criança estiver realmente pronta. Primeiro vem o desenvolvimento, depois a criança aprende”.

Biologicamente, a criança terá o controle de ambos os esfíncteres até os 42 meses, mas dentro deste espectro cada um terá seu próprio momento. Daí a importância da observação ativa e do respeito ao chamado “microtempo” do bebê. A pedagoga faz um paralelo: “Vamos supor que o bebe recém-nascido chora quando esta com fome e é atendido. Ele não sabe o que acontece, mas sabe que mamar dá conforto. Isso se repete várias vezes e ele sabe que quando ele sente o desconforto alguém vem confortá-lo com leite. Este é um micro tempo. Com o cocô, o que é considerado um indicador de controle pela maioria das pessoas pode ser apenas a compreensão de um microtempo. A vontade gera desconforto, a barriguinha dói, a criança sabe que a fralda vai encher e que ela não gosta daquilo. Se reagirmos a isso como um sinal, haverá diversos ‘acidentes’ até que a criança tenha os horários condicionados ou que realmente consiga segurar e controlar a urina e as fezes. Este controle parte de uma região do cérebro que se desenvolve a seu tempo, não é um aprendizado.”

E se a criança se incomoda com a fralda? “Essa é fácil, podemos deixá-la peladinha”, responde Leila. “Só não podemos cobrar nada por isso”. Também é possível condicionar a criança a fazer as necessidades em horários determinados, embora o condicionamento não seja interessante para a abordagem Pikler. “Ela pode até se acostumar, mas isso não quer dizer que vá ter controle sobre as necessidades, o que pode gerar tensão”.

Em sua passagem pelo Instituto Pikler, em Budapeste, Leila chegou a ver crianças de 3 anos ainda de fraldas. “as mães devem ficar tranquilas em vez de ver de ter isso como um objetivo em uma certa idade. Todas as crianças desfraldam quando estão prontas”. Quando chega a hora, são usados vasos sanitários baixinhos para que os pequenos tenham autonomia. “Mas um banquinho e um adaptador do vaso da casa também são bem aceitos”, completa a especialista.

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