Ana Paula Caldas no Siaparto 2016
Neonatologista humanizada Ana Paula Caldas fala sobre postagem que gerou polêmica nas redes sociais

 Imagem Ana Paula em palestra no Siaparto (Simpósio Internacional de Assistência ao Parto) 2015

“Preciso contar outra coisa para vocês, mães/pais de um filho só: Seu filho é uma criança extraordinária, como todas as outras crianças do planeta. Ter parto humanizado, criação com apego, amamentar até 18 anos, fazer unschooling não faz de seu filho o Messias. Pode parecer que ele é muito especialzinho ou diferente, mas isso é uma ilusão que a gente perde ao ter o segundo filho, ou conviver mais com outras crianças.
Crianças são incríveis porque são crianças. Todas elas. As crianças desescolarizadas e as que estudam no colégio de freiras.As que nasceram de parto domiciliar no quintal ou as que nasceram de cesárea eletiva. 
Seu filho faz e diz coisas espetaculares porque é criança, não porque é seu filho e você o educa brilhantemente.
Faça um favor a você e à sua cria e repense o seu próprio narcisismo. Corresponder às expectativas dos adultos já é um fardo e tanto para qualquer criança, ter que ser o índigo-cristal- messias então, nem se fale. Um dia vocês vão acordar e seus filhos especiais estarão gostando de Wesley Safadão. 

Aceitem que dói menos.”Talvez o texto acima, um post no Facebook, tenha chegado a você na semana passada acompanhado de palmas ou de críticas (foram mais de 800 compartilhamentos e opiniões divididas). Sua autora é Ana Paula Caldas, neonatologista – pediatra especialista em recém-nascidos – 48 anos, três filhos. Para deixar bem claro a que – e quem – ela estava se referindo, Conversamos com ela sobre o “post polêmico”, criação com apego, filhos únicos e parto domiciliar.

Hoje Ana Paula é uma das coordenadoras do grupo Samaúma de apoio ao parto humanizado, e figura constante nos grupos de maternagem consciente, mas nem sempre seguiu essa linha. “Minha formação profissional foi bastante convencional, fiz minha graduação e residência médicas na UNICAMP, onde continuei trabalhando como medica assistente até 2009. Na faculdade não tive nenhum contato com humanização do parto”, conta. As coisas mudaram com o nascimento do primeiro filho, hoje com quase 16 anos, por meio de uma cesariana indesejada. “Como fiquei muito frustrada com a cesárea passei a pesquisar mais sobre parto natural e acabei nos grupos virtuais de discussão sobre parto humanizado”.

A segunda filha, hoje com 11 anos, nasceu em um parto domiciliar com parteira, assim como o terceiro, de oito anos. O trabalho na Universidade – que era exatamente de supervisão de residentes e alunos na sala de parto – parou de fazer sentido e em 2009, quando Ana pediu o desligamento e continuou atuando apenas a clínica privada, em partos hospitalares e domiciliares e fazendo alguns trabalhos voluntários. Leia na entrevista abaixo a opinião da pediatra sobre o próprio post e outros assuntos.

Casa de Viver: Onde o post foi publicado originalmente? Qual foi o gatilho para você escrever aquilo?
Ana Paula Caldas: O tal “post polêmico” foi publicado na minha timeline mesmo. Aliás, para mim não houve polêmica alguma (risos). Não houve um “gatilho” propriamente. Eu tenho observado, nas redes sociais, escola dos filhos e grupos de mães que existe um absurdo narcisismo e expectativa disfarçada em cima das crianças. Óbvio que eu circulo em grupos específicos, de parto humanizado, criação com apego, educação alternativa, então é desse público que estou falando. Portanto o público alvo do post foram mães de filhos únicos que praticam o que chamamos criação com apego. Eu tenho observado que este público, ou estas mães (ou pais, mas eu convivo mais com as mães) têm a impressão que o tipo de escolhas que elas fizeram em relação ao parto, educação, alimentação etc. faz de seus filhos crianças muito especiais. Brilhantes. Fantásticas. Hoje em dia, com as redes sociais, eu observo a exposição das coisas geniais que essas crianças fazem, compartilhadas pelas mães, orgulhosas de seus filhos especiais. Quando você vai ver qual foi a coisa extraordinária que a criança fez ou disse, são coisas absolutamente normais de serem ditas ou feitas por qualquer criança. Ou seja, crianças são mesmo fantásticas porque são crianças, só.

CdV: Muitas mães entenderam o post como você dizendo que a forma como as crianças são criadas não importa e fizeram uma leitura de que “tanto faz bater ou criar com apego”. Esse “feedback negativo” chegou a você? Para essas pessoas, você poderia explicar o que quis dizer?
APC: Não recebi o feedback negativo, não. E é óbvio que a forma como as crianças são criadas faz toda a diferença, mas não as torna mais ou menos geniais, aí que está a questão. As crianças são geniais por natureza, e isso nada tem a ver com a criação. Associar o tipo de criação com o que o seu filho faz diz mais sobre você mesma do que sobre a criança.

CdV: Pela sua experiência, qual a diferença entre a mãe de um filho só e a de mais de um?
APC: Eu sou filha única e tenho três filhos. Então posso dizer do ponto de vista de quem não teve irmãos e do ponto de vista de quem tem mais de um filho. O que acontece é que quando a gente tem um bebê ele é a coisa mais maravilhosa do universo pra nós. Parece que se ele comer uma laranja que não seja orgânica isso acabará por corromper aquele ser tão perfeito. O bebê cresce, começa a falar coisas fofas porque são crianças e não por causa da maravilhosa educação que damos. Quando a pessoa tem um filho só e ele não vai à escola, ou tem pouco contato com outras crianças, a coisa para aí. A criança sempre será a coisa mais maravilhosa da terra. Quando temos outros filhos, em alguns dias nosso filho mais velho maravilhoso estará enfiando um lápis no olho do irmãozinho, e o próprio irmãozinho, ao crescer, alternará gracinhas maravilhosas e comentários absolutamente extraordinários com coisas absolutamente comuns, como fazer birra no supermercado. O segundo , terceiro, quarto filho recebem sobre eles menos carga de expectativas, vai ter menos olhos adultos sobre eles. Quando temos vários filhos fica mais fácil de perceber que todos são extraordinários e ao mesmo tempo, absolutamente comuns, o que muda é nossa expectativa sobre eles.

CdV: Existe muito narcisismo na maternidade hoje? Você acha que as redes sociais estimulam este comportamento?
APC: Existe um enorme narcisismo, principalmente nas redes sociais. A criança faz uma coisa absolutamente comum ou uma fofura qualquer, a mãe posta, as pessoas curtem e isso não fala da criança, mas de como EU, mãe, fiz um filho extraordinário, ou como minha extraordinária criação produziu um ser de luz. Como sempre, não falamos das crianças, mas de nós mesmos.

CdV: Você tem três filhos. Usou algum “método” para criá-los?
APC: Meus filhos todos foram amamentados por vários anos, nunca deixei chorar sem ser atendido, enfim, não tenho um método, mas dou a eles uma educação que julgo humanista. Vão à escola Waldorf, têm muita liberdade e autonomia, meu adolescente tem bastante liberdade de compartilhar coisas conosco. Acho tudo que eles dizem e fazem absolutamente fantástico, mas são crianças comuns, o mais velho gosta de música clássica e a do meio ouve Ludmilla, por exemplo.

CdV: Um outro post seu que “deu pano para manga” foi a questão do parto domiciliar x parto hospitalar. Você defende que se é para ter domiciliar, que seja com parteira e que se a pessoa se sente segura com o médico, deve ir para o hospital. Por conta disso muitas mulheres se justificaram, dizendo que precisaram de médico no PD porque tinham alguma complicação na gestação, ou que levaram a parteira para o hospital porque se sentiam mais confortáveis com ela… dá para perceber que ainda há muita insegurança nas decisões tomadas pelas mulheres, mesmo quando acompanhadas do discurso do empoderamento. Como você encara essa questão?
APC: Neste post sobre parto em casa eu digo que PD é coisa de parteira. Se a mulher prefere ter um médico no seu parto, que o faça no hospital, porque um obstetra não pode fazer nada em casa que uma parteira não possa. Uma mulher que tem complicações na gestação vai ter que parir no hospital, portanto com médico. Sobre o empoderamento vejo que caminhamos muito, mas as pessoas ainda têm a ideia de que o médico é o salvador, que o médico sabe mais. Quando o assunto é parto em casa, e era disso que tratava meu post, a parteira sabe mais. Ela foi treinada para atuar em casa, resolver emergências em casa. O médico faz isso no hospital.

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