Profissionalismo Materno

Na semana passada, tivemos aqui na Casa de Viver mais um Café com Mães Empreendedoras, um evento de networking e desenvolvimento que realizamos desde 2014, antes mesmo de abrirmos fisicamente a Casa.

O tema escolhido para esse Café foi muito importante, porque busca encontrar respostas e soluções para problemas que enfrentamos tanto como empreendedoras mães quanto como consumidoras de produtos e serviços dessas empreendedoras.

Apesar de buscarmos sempre dar preferência aos produtos e serviços dessas mães, sentimos que as experiências negativas acabam por nos tornar apreensivas ao contratar as mães, e sabemos que isso pode ser uma grande barreira para que outros públicos, certamente menos compreensivos e menos comprometidos com o movimento, possam tornar-se consumidores dos nossos produtos e serviços.

Reproduzimos aqui alguns dos principais pontos que foram levantados durante o evento.

Para as mães, empreender não é uma escolha, é uma alternativa
A nossa primeira palestrante, Sabrina Wenckstern, coach, palestrante e empreendedora no Materna S/A, enfatizou a questão do empreendedorismo como alternativa para as mães. A realidade do mercado de trabalho muitas vezes leva as mulheres que têm filhos a ficar sem escolhas em relação à vida profissional e geração de renda para o sustento próprio, dos filhos e da casa. Isso por diversos motivos, que influenciam cada mulher de forma diferente, a depender de outros fatores como a profissão que exercem e a configuração familiar.

De forma geral, muitas mães acabam por empreender, segundo Sabrina, porque percebem que a profissão que tinham antes de ter filhos, seja pela carga de trabalho, distância e transporte, horários, ou qualquer outro motivo, não se encaixa com a visão que elas têm da maternidade. Ou seja, elas percebem que não será possível ser mãe da forma como julgam necessário (e essa é uma questão pessoal) E ser a profissional que eram antes.

Frequentemente, as mães que retornam ao trabalho ao fim da licença maternidade (que na maioria das vezes é de 4 meses, já que a minoria das empresas opta pela licença de 6 meses, como lembra Sabrina) acabam demitidas assim que termina o seu período de estabilidade, que é de um mês.

E todas nós sabemos o tamanho da dificuldade de ser contratada por qualquer empresa quando se tem filhos, especialmente se você tem um filho muito pequeno, com meses de idade.

Principalmente no momento atual de crise, as mães de filhos pequenos estão em primeiro lugar na fila das demissões, e têm sido muito frequentes os relatos de mães nessa situação.

Nesse panorama é que podemos afirmar que não restam muitas opções para as mães, e muitas não têm outra escolha senão empreender.

Empreender o que?
É nesse momento que a questão do profissionalismo se torna uma armadilha. As mães que se veem nessa situação provêm das mais diversas profissões. Mas muitas dessas profissões não se prestam ao formato autônomo ou de microempresa, e muitas ainda não têm um mercado óbvio que possa ser atacado de imediato. Isso faz com que muitas mães, sem conseguir transformar sua experiência anterior em negócio, acabam por escolher uma área para empreender na qual não têm nenhuma experiência prévia, e muitas vezes são movidas apenas por uma crença de que aquele seria um ramo rentável, e não por um propósito verdadeiro.

Sabrina conta que foi exatamente isso que aconteceu com ela logo que saiu da empresa depois que a filha nasceu. Ela decidiu empreender no ramo de roupinhas e slings para bebês, sem ter nenhum conhecimento sobre as particularidades do negócio, e sem ter um propósito maior do que o fato de estar envolvida no universo infantil.

Sabrina enfatiza a importância de um propósito para o novo negócio, uma motivação que possa nos levar a aprender aqueles aspectos que desconhecemos, que nos impulsione para a profissionalização ainda que estejamos atuando em um ramo totalmente novo.

Caso não haja essa disposição para aprender, para profissionalizar-se, é melhor buscar outro ramo de atuação.

Basta uma experiência ruim
Isso porque, do lado do consumidor, uma experiência ruim basta para que ele não compre mais daquele fornecedor. E, o pior, no caso do empreendedorismo materno, às vezes uma experiência negativa com uma mãe basta para que a pessoa decida não comprar mais de mães empreendedoras.

Durante o evento, tivemos vários depoimentos de mães que tiveram problemas com o serviço prestado por outras mães e que hoje não se sentem totalmente confiantes para contratar serviços delas novamente.
Isso é negativo para o movimento como um todo, como lembra Sabrina.

Os desafios de ser mãe empreendedora
Longe de querer justificar os problemas que os serviços e produtos de mães empreendedoras apresentaram, buscamos entender quais são as dificuldades específicas que as mães encontram para se profissionalizar e atender bem aos seus clientes.

Sabrina levanta algumas dessas dificuldades:

1) Conciliação de múltiplos papéis. Todas nós sabemos que ter filhos é uma tarefa de período integral. Cuidar da casa também é uma tarefa pesada. Conciliar esses dois papéis e ainda dar conta de todas as demandas de ser empreendedora pode ser simplesmente impossível se você não tiver apoio. É aí que entra a discussão da divisão de tarefas, da necessidade de que todos dividam de verdade as responsabilidades de cuidar dos filhos e da casa, e também de encarar tarefas domésticas de uma forma mais realista, e se cobrar menos perfeição.

2) Gestão do tempo. Uma vez estabelecida a divisão de tarefas, é importante definir prioridades e se organizar. Os filhos certamente ocuparão o primeiro lugar em todas as nossas listas, mas uma vez que somos empreendedoras, as necessidades dos clientes precisam ser atendidas com perfeição, e por isso é preciso organização para não falhar com eles também. Importante lembrar aqui que, para dar conta de cuidar bem dos filhos e atender bem os clientes, não podemos esquecer de ter um tempinho para cuidar de nós mesmas: se não estivermos bem, não desempenharemos bem as nossas tarefas!

3) Profissionalização. É bom frisar: se você está empreendendo em uma área nova, em que não tem nenhuma experiência anterior, é importante buscar informações, aprender, profissionalizar-se. Ou então buscar uma área que lhe seja mais familiar. E mesmo que esteja empreendendo na sua área, é importante reservar um tempo para aprender mais sobre ela, e sobre todas as outras áreas de um negócio. Afinal, como pequena empreendedora, todas as funções do negócio vão estar nas suas mãos, e nós nunca somos boas em tudo, não é?

4) Concorrência sadia. Novamente, lembrar que estamos todas no mesmo barco, e que o nível de serviço ou a qualidade do produto que oferecemos pode influenciar a aceitação, pelos consumidores, de todos os serviços e produtos de mães empreendedoras. É bom lembrar que, ao oferecermos um serviço ou produto excelente, estamos nos beneficiando e criando mercado para todos os serviços e produtos de outras mães como nós!

5) Valorização do empreendedorismo materno. Esse ponto tem muito a ver com o anterior, mas tem a ver também com um autoexame que devemos sempre fazer: “será que eu consumiria o meu produto?”. Se ele não for bom o suficiente para você, precisa melhorar. Ou você estará desvalorizando o empreendedorismo materno. Sim, a responsabilidade é de cada uma de nós!

ASPECTOS JURÍDICOS
Nossa segunda palestrante foi a advogada Paola Lima, da FEMME Consultoria Jurídica, que nos trouxe os aspectos jurídicos das relações de consumo, que muitas vezes são desconhecidos por quem começa um negócio, mas que são importantíssimos para não termos problemas depois.

Paola iniciou apontando alguns erros frequentes que empresas de todos os tamanhos cometem na relação com os consumidores, como:
– contratos que são difíceis de entender: é preciso pensar nos termos para se fazer entender pelo cliente
– preços que não estão claros: ainda que o produto seja personalizado, é importante deixar claro o preço
– publicidade abusiva ou enganosa: o que está na foto ou na divulgação é o que tem que ser entregue
– prazo de entrega: o planejamento da empreendedora precisa levar em conta todos os fatores, desde a produção até o tempo de envio. É importante calcular uma margem para imprevistos. É melhor surpreender o cliente entregando antes do programado do que atrasar a entrega. O Código do Consumidor protege o cliente, e esse tipo de atraso pode dar a ele o direito de receber indenização, inclusive por danos morais.

Para evitar problemas, Paola recomenda a prevenção, representada pelo seguinte ciclo:

Imagem

Ou seja, reforça-se a necessidade de se profissionalizar para que a entrega tenha qualidade. É preciso que as informações prestadas ao cliente sejam claras, inclusive no que diz respeito à política de troca, termos de uso e preço. O atendimento tem que ser bem feito e atencioso, e é preciso ter boa fé, o que pode ser traduzido como empatia pelo cliente e suas necessidades. Quando nos colocamos no lugar do consumidor, fica mais fácil entender do que ele precisa e o que ele espera.

Os desafios são muitos, então como ser profissional?
Depois das palestras da Sabrina e da Paola, abrimos espaço para o debate, perguntas e trocas de experiências. Essa troca deixou muito clara a preocupação das mulheres com o profissionalismo nos produtos e serviços, tanto quando estão no papel de empreendedoras quanto quando estão do outro lado, consumindo produtos de mães empreendedoras.

Daí surge a pergunta: como o profissionalismo pode resistir em um ambiente que traz muito mais desafios para as empresas de mães empreendedoras do que para outras empresas que prestam os mesmos serviços ou oferecem os mesmos produtos?

No debate, chegamos a algumas possíveis respostas:

1) Precisamos nos cercar de uma verdadeira rede de apoio. E isso começa em casa, com as pessoas mais próximas. Precisamos falar sobre as nossas dificuldades, deixar claro que não damos conta de tudo, e realmente abrir espaço para que as pessoas possam dividir as responsabilidades da casa e da família conosco. Por isso, a decisão de empreender precisa envolver toda a família, porque as mudanças serão sentidas por todos. É necessária muita abertura, conversa e disposição de todos os lados em entender o outro lado e dar apoio.

2) É preciso ter organização e planejamento bem definidos. Saber que teremos mais imprevistos do que alguém que esteja fazendo as mesmas atividades, mas não tenha filhos. E incluir no nosso planejamento uma margem para esses imprevistos. Isso inclui pensar de antemão em um plano B e até um plano C. “E se acontecer alguma coisa e eu não puder ir pessoalmente fazer a entrega? Com quem posso contar?” Ter opções na manga é simplesmente indispensável para nós, mães empreendedoras. Do contrário, quem paga o pato é o cliente, que pode até ser outra mãe, mas nem por isso pode abrir mão de receber o que comprou, na data certa e conforme combinado.

3) Ter sempre em mente que fazer bem feito não é diferencial competitivo. Fazer bem feito é o mínimo que se pode esperar, e é o que o seu cliente espera de você.

E você? Quais a sua visão sobre isso? Já teve uma experiência negativa com o empreendedorismo materno? Vale contar experiências positivas também, claro! Comente aqui!

Quer participar do próximo Café? Faça sua inscrição aqui para o Café com Mães Empreendedoras – edição de setembro.

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