Filhos x Trabalho

Quando mulheres se tornam mães – e homens, pais – começam a ouvir uma vozinha lá no fundo que diz: “isso é melhor que ficar com seu filho?”. Ela aparece quando você sai para uma festa pela primeira vez sem o bebê, quando está assistindo TV e ele está sendo cuidado por outra pessoa, quando pensa em dormir até mais tarde no sábado, quando está parado no trânsito, em diversas situações sociais que antes você faria sem pensar, mas, principalmente, quando você está trabalhando. Aquele trabalho traz realização o suficiente para compensar o tempo longe? Paga bem o suficiente?

É por isso que tantas mulheres decidem largar o emprego depois de virarem mães, e provavelmente por perceberem isso – e por ignorarem as regras da CLT que agora estão ameaçadas de extinção também na teoria – que tantos chefes endurecidos pelo esquema empresarial decidem dispensar essas mulheres assim que elas voltam ao trabalho, sem chance de conversa. Não são casos isolados. Segundo uma pesquisa realizada com 100 empresas brasileiras, 52% das mulheres não retornam ao trabalho após a licença-maternidade. Esse número não inclui as que são dispensadas pouco tempo depois.

Quem tem a possibilidade financeira às vezes escolhe ficar em tempo integral com as crias, uma delícia e um grande privilégio, mas também uma espécie de ostracismo. Do outro lado há quem continue trabalhando porque precisa, ou quem decida fazer algo mais significativo no âmbito pessoal, o que muitas vezes envolve abrir uma empresa, começar uma carreira nova e ter que dedicar até mais do que 8 horas por dia a isso. E lá vai o bebê para a creche em tempo integral, bem no momento em que a presença dos pais é crucial para seu desenvolvimento*.

Entre estes dois cenários extremos estão mães e pais freelancers, os empreendedores que preferem abrir mão de parte do lucro para ter tempo com os filhos, os que fazem mestrado, doutorado e precisam de um tempo para se dedicar aos estudos ou a projetos pessoais, mas não querem abrir mão daqueles primeiros anos com o bebê.  É o caminho do meio.

No budismo, o caminho do meio é a grande verdade descoberta por Siddhartha Gauthama, que após anos meditando e jejuando teve uma epifania ao ouvir um músico dizendo para seu aluno: “Se você apertar esta corda demais, ela arrebenta; e se a deixar solta demais, ela não toca”.

Manuela Araújo descobriu isso na prática. Após o nascimento de sua segunda filha, a funcionária da Caixa Econômica Federal decidiu tirar uma licença de dois anos – permitida pela instituição – para ficar com a pequena, coisa que não havia feito com a primeira porque na época teve ajuda da mãe. “Por ser pedagoga de formação e doula, acredito que o melhor nesta fase seria ter a mãe, no caso eu, cuidando dela nos primeiros dois anos de vida. Além disso minha mãe estava requerendo alguns cuidados com sua saúde. Então o meu sabático, que não é remunerado, na verdade foi para cuidar da família, minha mãe e minhas duas filhas.”

O tempo em casa, porém, não foi exatamente como imaginado. “Fiquei muito frustrada em estar trancafiada em casa, em não ter o meu dinheiro. Minha saúde mental, física e emocional foi enfraquecendo, e consequentemente precisei de ajuda”. Em sessões de coaching, Manuela decidiu se dedicar à escrita, atividade com a qual flertava desde criança, e pôr em prática o curso de doula que havia feito durante a gravidez. Mas assim que começou, percebeu que era impossível sentar em frente ao computador e se concentrar por mais de 5 minutos estando em casa com as crianças. Pesou as alternativas – creche, babá, coworking – e optou pela Casa de Viver. “Fui para lá com minha pequenina nos braços e no peito. E realmente era o que eu mais precisava naquele momento: ver e conversar com outras mulheres que passavam pelo que estava passando. Foi crucial pra eu me organizar naquela parte da vida, respirar, enxergar possibilidades. Conseguia dar um atendimento melhor pras gestantes, fazer e pensar em marketing e até escrever. E mesmo fazendo tudo isso estava perto da minha filha o tempo todo. Amamentei em livre demanda, e principalmente: conciliei o que eu acreditava com o que eu precisava”. Hoje, com a filha prestes a fazer dois anos, um conto publicado e diversas doulagens realizadas, Manuela pensa em voltar para seu emprego anterior. “O resultado não foi exatamente o que eu imaginava quando comecei, mas com certeza depois desta jornada sou uma pessoa mais feliz e tranquila com minhas escolhas.”

Com menos dúvidas sobre o trabalho, a jornalista e blogueira Mirella Luigi chegou à Casa de Viver por conta de uma “surpresa” no emprego no qual esta há anos: foi demitida logo após a licença maternidade acabar. “Cheguei lá e logo na entrada um cartaz dizia ‘É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança’. Não precisei mais de muito para decidir virar frequentadora, uma “aldeia” de apoio era tudo o que eu precisava naquele momento de caos do puerpério e retorno à vida de freelancer”. Mirella passou cerca de um ano frequentando o coworking com sua filha, que tinha 7 meses quando chegou, até ela estar segura para colocar a pequena Dora na escola. Hoje, visitam nas férias e nos contraturnos. “Não sei nem colocar em palavras o quanto a Casa de Viver foi importante para que eu me reencontrasse após o nascimento da minha filha. Mesmo quando ainda não tinha clientes, frequentar a casa foi importante para ter aqueles momentos de colocar as ideias e a sanidade em ordem sabendo que minha filha estava bem acolhida ali do lado. Hoje a Casa de Viver é uma referência de um lugar cheia de carinho e amor para nós duas!”.

A Casa de Viver foi o primeiro coworking brasileiro a ter espaço para os filhos de seus frequentadores. Aberta em janeiro de 2014, hoje funciona em uma casa modernista na Vila Mariana onde o primeiro andar é dedicado às crianças (salão de brincadeiras, sala do soninho, quintal e jardim) e o segundo é dos adultos, com sala de coworking, sala privativa para atendimentos e sala de reuniões. Também há espaço para eventos, cozinha e copa para as famílias fazerem as refeições juntas e um delicioso terraço que abriga animados cafés e happy hours. Conheça a Casa aqui.

*http://www.bbc.com/portuguese/geral/2016/04/160427_cerebro_amordemae_mdb_if

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