Pedagogias de Respeito

Por Leila Oliveira Costa, Professora Universitária e Assessora Pedagógica.  Pedagoga (Unicamp) e Mestre em Educação Ensino e Práticas Culturais  (UNICAMP), Especialista em Educação de 0 a 3 anos (Instituto Singularidades). Participou do Curso Introdutório da Abordagem Pikler no Instituto Pikler (Budapeste – Hungria) e Aprofundamento na Abordagem Pikler pela Rede Pikler Nuestra América.

Há alguns anos estou envolvida com os detalhes dos cuidados que oferecemos aos bebês (0 a 3 anos ) em espaços coletivos e, foi nestes anos que pude acompanhar a literatura relativa aos primeiros anos de vida crescer consideravelmente. Alguns livros que já existiam há bastante tempo, chegam ao Brasil , depois de traduzidos, e estudos realizados fora do país são validados por nossas universidades por grupos sérios e comprometidos com os primeiros anos de vida. Além disso, os primeiros cursos de Especialização de 0 a 3 anos começam a surgir.

Todas  estas produções contribuem para a nossa compreensão sobre a importância da INTERAÇÃO entre um bebê e seu cuidador, seja este cuidador a sua mãe, ou seu professor na creche. INTERAÇÂO de qualidade produz efeitos positivos na vida do bebê. Mas o que significa interação de qualidade?

Na neurociência os estudos sobre 0 a 3 anos comprovaram que aos dois anos um bebê faz o mesmo número de conexões de um adulto. Aos 3 anos , o número de conexões realizadas é o dobro das que um adulto realiza – por isso às vezes nos surpreendemos com a capacidade de resolução das crianças tão pequenas dizendo: “Nossa, como ele fez isto ,
tão pequeno!”. No entanto, ao final dos 3 anos esse número de conexões diminui e os neurônios não utilizados até aquele momento são descartados.

Algumas escolas usam esta descoberta justificando o porquê das crianças bem pequenas deverem ter uma agenda incluindo Inglês, música, atividades de escrita e leitura, porém, as Pedagogias do Respeito (como Waldorf, Montessori, e Pikler) há muito tempo atrás nos deram a base para que o potencial máximo de aprendizagem se constituísse. Esta base repousa sobre três elementos fundamentais: O Cuidado, A Brincadeira e o Movimento.

É a partir destes elementos que os bebês , para além de receber informações sobre o meio, constroem a base para as capacidades de se tornarem humanos inteligentes e sadios ,tanto fisicamente quando psiquicamente. Neste primeiro texto apresento como o CUIDADO, elemento fundamental da Abordagem Pikler favorece uma interação de qualidade . O CUIDADO é o fundamento desta abordagem para todas as conquistas de um bebê.

É importante explicar que uma abordagem é “uma forma de aproximação”, e que quando Emmi Pikler escreve sobre cuidados , ela se preocupa em indicar às mães e às educadoras “como oferecer este cuidado” , no entanto, é no resultado da interação que surge entre o bebê e seu cuidador que visualizamos uma inteligência nascer não apenas no bebê ,mas também em seu par.

Para exemplificar o que escrevi acima: Um cuidador , ao dar o banho em seu recém nascido, explica a ele tudo o que irá acontecer : “Vou lhe dar banho agora, por que você me parece um pouco cansado. O banho fará com que você fique mais relaxado e consiga dormir.” Continua explicando ao bebê , desde a retirada da roupa , até o banho e a colocação de nova roupa. Esta ação já faz com que o bebê preste atenção à voz do cuidador e se acalme. Provavelmente será um banho agradável para os dois .

Porém, o cuidador e o bebê podem ir além nesta interação. Vamos supor que o cuidador procure o olhar do bebê enquanto fala, e que, todos os dias inicie a retirada de roupas da mesma maneira pedindo sempre a colaboração do bebê. “Você poderia levantar seu bracinho? Agora que coloquei seu agasalho vou vestir uma calça. Você pode me dar o seu pé?” – O que aconteceria neste caso? Pikler e suas colaboradoras perceberam que, quando há uma sequência de acontecimentos nestes momentos de cuidados , o bebê, em pouco tempo, é capaz de antecipar estes acontecimentos e participar ativamente. Ele passa a prestar atenção nas ações que o outro realiza e responde á partir da ação do próprio corpo, embora não possa falar. Os bebês iniciam então a vocalizar como se estivessem comentando o que fazem e o adulto também se beneficia deste momento, a sua capacidade de compreender a linguagem corporal dos bebês é também transformada.

Antecipar as ações do cuidador, ou seja, saber como o cuidador se aproxima, também constrói as bases da segurança. O bebê estará tranquilo por que sabe o que acontecerá com ele.

E então, o que se constitui como base da inteligência neste exemplo? A capacidade de memorização, a capacidade de sequencia temporal, a capacidade de comunicação, a atenção ,a capacidade de controle do próprio corpo para responder ao adulto e o mais importante, a segurança afetiva. Ao ser cuidado por um adulto o bebê inicia seu processo de se reconhecer como alguém importante.

É por isso que as cuidadoras do Instituto Pikler , realizam os cuidados utilizando-se da mesma abordagem , ou seja, da mesma forma de aproximação. Isso não quer dizer que elas cuidam de forma mecânica, mas em princípios abordam os bebês nos momentos de cuidados :

  • Procurando estabelecer uma comunicação visual
  • Antecipando o que irão fazer
  • Seguindo uma mesma sequência global.
  • Esperando as respostas dos bebês
  • Se interessando pelas curiosidades dos bebês que surgem durante estes momentos de interação.

Pikler e suas colaboradoras são detalhistas ao apresentar a abordagem. Poderíamos dizer que explicam a arte dos detalhes nos momentos de cuidados, mas não são apenas as experiências que elas conduziram que podem nos orientar para a importância dos cuidados. Hoje , as pesquisas conduzidas pela prof ª Márcia Cristina Kupfer e suas colaboradoras sobre o Índice de Risco de Desenvolvimento Infantil, também colocam a interação do cuidador como fundamentais para a saúde do bebê. A neurociência também comprova que a interação sustenta a formação de conexões primordiais para o cérebro do bebê.

Por isso  dizemos que Pikler estava à frente do seu tempo, pois percebeu em sua própria experiência como conduzir os bebês a efetivamente serem vistos como pessoas capazes desde muito cedo, mesmo sem todo o aparato tecnológico que nos é colocado à disposição para o estudo dos bebês.

No próximo texto, escreveremos sobre os detalhes dos momentos de alimentação, sono e banho.

Até lá!

Para saber mais leia: Educar nos três primeiros anos de Judith Falk 

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