Priscila e Shamil com o filho Valentim

Uma pesquisa feita com 13 mil mulheres pela agência Catho apontou que 28% delas fazem um intervalo de três anos ou mais na carreira após o nascimento dos filhos. Entre os homens, este número cai para 5% – sendo que deste total quase a metade – 49% voltam a ter um emprego fixo em seis meses.

Seria o instinto materno que faz as mulheres terem mais necessidade de ficar com a prole do que os homens? Realmente, do ponto de vista evolutivo, mulheres são mais preparadas para proteger os recém-nascidos do que os homens. Mamíferos descendem dos répteis, que botam ovos e os abandonam à própria sorte. Porém, na transição que ocorreu há cerca de 90 milhões de anos – de animais que botam ovos para animais que amamentam – esse cenário mudou. Os bebês passaram a ficar no útero mais tempo, para nascerem mais fortes e com mais chances de sobreviver, e passaram a precisar de amamentação e cuidados constantes até que pudessem andar com as próprias pernas, se alimentar e se defender sozinhos.

Pesquisa realizada por C. Kinsley e K. Lambert e publicada recentemente na revista Scientific America reforça esta tese, explicando que “nos mamíferos, todas as fêmeas sofrem profundas mudanças comportamentais durante a gravidez e a maternidade, porque o que antes era um organismo devotado a suas necessidades e à sobrevivência individual, agora precisa concentrar-se nos cuidados e no bem-estar dos filhos”.

O instinto é, portanto, uma resposta hormonal do corpo à gestação. A comunidade científica é unânime em dizer que os hormônios femininos estrogênios e progesterona, juntamente com a prolactina, responsável pela produção do leite, influenciam diretamente no comportamento protetor associado à maternidade. Soma-se a isso o amor materno, e o resultado é a estatística acima.

“Eu nunca tinha cogitado essa hipótese (de abandonar o emprego) porque na minha cabeça seria muito importante tanto eu voltar a trabalhar quanto para ele ter contato com outras crianças na escola. Sem contar as despesas de casa, ficaria muito apertado para só um segurar”, conta a psicóloga Priscila Josefick, mãe de Valentim, de um ano.

Ela teve quase seis meses de licença, juntando os quatro permitidos por lei com férias e banco de horas, mas lembra que dois meses antes de o total acabar já estava incomodada com a ideia de deixá-lo com o marido, que trabalha em casa. “Ficava muito triste, chorava, estava muito difícil lidar com a ideia de voltar”. Mas a ideia de que precisava voltar a trabalhar era mais forte, tanto que o incentivo do marido para que ela ficasse em casa foi, a principio, visto com maus olhos. “O Shamil falava o tempo todo: se está difícil para você fique aqui, a gente se aperta, a gente consegue. E eu ficava com raiva. Pensava nas contas, no plano de saúde, que desde adolescente eu trabalhava e era independente”.

Faltando um mês para o retorno a linha de pensamento mudou. “Comecei a pensar em uma série de coisas: que eu nunca tinha feito nenhuma loucura, nunca viajei, sempre tive tanto medo de ficar sem trabalho que só me preocupava com isso, achava melhor ter algo ruim do que arriscar e ficar sem nada… e comecei a achar que aquele era o momento. Por mais que eu confiasse muito no meu marido, sabia que ele daria conta de cuidar super bem do Tim Tim, que eu não queria perder a primeira infância dele e que se havia um momento para eu não priorizar o trabalho era aquele”.

O apoio dos pais também foi importante para que Priscila tomasse a decisão. “Quando contei pro meu pai que estava pensando em pedir demissão ele me acalmou e disse que sabia que seria assim, que o amor pelos filhos é muito grande e ele já imaginava que isso fosse acontecer comigo, que estaria do meu lado”.

A proposta feita no trabalho foi de reduzir a carga horária ou de uma licença não remunerada de um ano. A empresa contrapropôs que ela fosse mandada embora, para ter os benefícios e o FGTS. Enquanto as negociações eram feitas, Priscila voltou da licença e trabalhou por 15 dias. Um estoque de leite materno foi preparado com a ajuda de uma bombinha, e a angústia da separação deu lugar à ansiedade pela nova rotina ao lado da família. Mas ter voltado temporariamente ao trabalho foi importante para a psicóloga. “Acabou sendo bom porque eu vi que eu conseguia passar algum tempo separada dele e vi que ele ficava ótimo só com o pai – ele me mandava fotos todos os dias deles passeando, comendo frutinhas, brincando”, analisa. “Foi bom também porque ficou claro que eu precisava desse tempo para mim – e consegui ter uma vida um pouco mais leve conciliando esses dois papéis. Comecei a sair com minhas amigas para tomar cerveja, sair sozinha… o lado super positivo de eu ter voltado ao trabalho foi esse. Entre as minhas amigas vejo que as mães que só não retornaram ao trabalho tem muito medo de deixar os filhos sem elas. Talvez se eu não tivesse tido essas duas semanas, também tivesse esse medo”.

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