Franz Hermann e Olga brincam com canetinhas

É biológico. No reino animal, as mães cuidam dos filhotes enquanto os pais vão caçar. Opa, nem sempre. Então é socioeconômico. Milhares de pesquisas mostram que homens ganham mais que mulheres e que quase metade das mulheres não voltam ao mercado de trabalho depois de terem filhos, muitas delas porque são mandadas embora. Generalizando é verdade, mas há casos e casos. Sem lugares comuns como argumento, o que impediria, então, um pai de ficar com os filhos enquanto a mulher var trabalhar?

“Não há preconceito direto, mas vejo o olhar das pessoas quando passo na rua com minha filha no sling. Tanto de homens quanto de mulheres, principalmente mais velhos”, conta Maurício Maruo, que passa o dia com a filha enquanto a mulher tem um cargo tradicional em uma empresa. “Fomos os dois mandando embora pouco depois de ela nascer”, explica. “Enquanto prospectávamos novas colocações, procuramos creches e detestamos tudo o que vimos”. Frustrados com a perspectiva de Jasmim ficar longe de ambos em um ambiente que não satisfazia, e frente a uma proposta de trabalho “muito bem paga” que a mulher recebeu, a decisão de inverter os papéis tradicionais foi escolha óbvia.

Há diversas pesquisas explorando essa maior presença dos pais na vida dos filhos que vem ganhando força nas últimas décadas. Os resultados apontam que essas crianças têm mais facilidade de aprendizado na fase escolar e para relações interpessoais na adolescência. Há também um estudo que compara famílias de mães e pais solteiros, e a conclusão é que desde que haja presença e acolhimento, o desenvolvimento das crianças é igual.

Mesmo assim, a mudar a norma não é simples. Números do Boston College Center for Work and Family apontou que apenas 3,4% das famílias americanas têm homens como donos de casa, e que apenas 53% dos entrevistados que seguem os papéis tradicionais consideram que a mudança de situação pudesse ser interessante para si.

Glauciana Monteiro Nunes e Eduardo Aparecido da Silva viveram isso na pele após o nascimento de Joaquim, hoje com 9 meses. “Temos uma programação mental de família tradicional, inverter isso é uma quebra de memória celular de milênios”, analisa ela. Eduardo era consultor na indústria metalúrgica, estava descontente com o trabalho e sonhava em ter filhos. Ela tinha dois do primeiro casamento, amava seu trabalho, tinha estabilidade financeira e, quando engravidou, propôs que o marido pedisse demissão para curtir a paternidade. Ele topou na hora, mas assumir o novo arranjo não foi tão fácil.

“Fizemos muita terapia – separadamente – para trabalhar essa questão” lembra a jornalista. “Quando conhecemos alguém novo ou encontramos um amigo a primeira coisa que perguntam é o que você esta fazendo, e isso é sempre profissional. Então no começo tínhamos vergonha de falar que ele não estava trabalhando, falávamos que ele estava trabalhando na minha empresa de comunicação, mas era mentira, ele estava cuidando das crianças mesmo. A loucura é que entre nós estávamos muito felizes, sabíamos o que estávamos fazendo”.

A mudança começou quando Glauciana expôs sua situação em uma consultoria financeira. “Contei meio sem jeito e a resposta que tive foi ‘Isso é tão incrível, porque você fica se justificando?’”. Hoje eles não escondem a realidade de ninguém e percebem a admiração nos olhos dos amigos quando contam sua história. Eduardo vai voltar a trabalhar “quando, e se quiser”.

Há vezes em que o ponto de virada é circunstancial. É o caso de Adolfo Vicente, que se viu com cada vez menos trabalho, enquanto a demanda profissional da mulher, Marina, aumentava. Finalmente, no começo deste ano, ele assumiu os cuidados com o filho, Arthur, de 5 anos. “Eu já ficava com ele à tarde, mas em janeiro decidimos tirá-lo da instituição onde ele ficava de manhã e eu assumi a bronca”.

Mas a presença do pai não começou agora. “Eu sempre soube qual a correria, montar bolsa para sair de casa, suquinho, naninha, fralda, papinha, gorfo na roupa, pôr pra dormir, arrotar, inúmeras consultas no pediatra, pronto-socorro, e faço isso sozinho. Minha conexão com o Artur é bem surreal, não tenho crenças em vidas passadas, mas se tivesse diria q é o caso. E devo isso também, claro, ao período que ficamos juntos enquanto ele era bebê e à convivência do dia a dia”.

Sobre a divisão de tarefas em casa, Adolfo é realista: “Não é fácil, porque a impressão que dá é que ambos estão sobrecarregados, e isso gera atrito”.

O anarquista Franz Hermann engrossa a lista dos stay-at-home dads (termo em inglês para pais-donos-de-casa) e adora, além de passar o dia em companhia da filha Olga, de 3 anos, o fato de confrontar o que era considerado um padrão. “É um tapa na cara do patriarcado”, ri.

Hermann e Ana, sua esposa, decidiram durante a licença-maternidade que seria melhor um dos dois ficar com a filha Olga em casa, por conta da opinião que tinham sobre escola, cuidados e alimentação (o casal é vegano). Como Ana estava feliz no trabalho como professora e Franz não, ele pediu exoneração da prefeitura de Caieiras onde estava e passou a cuidar integralmente da pequena. “Sem dúvida alguma foi a melhor decisão que tomamos”, diz ele.

As tarefas da casa são divididas entre os dois, mas o assunto já rendeu discussões. “Lembra de uma tirinha que rolou no Facebook do marido folgado e a esposa se virando em 30 pra cuidar da casa filhos e afins? A Ana me mostrou e cobrou que eu fosse mais ativo em relação às coisas da casa, porque eu estava a sobrecarregando. Sou homem e todo homem é criado pra ser machista. Daí as vezes precisa de um chacoalhão pra voltar a pensar e não agir no automático do patriarcado”.

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