Criança e Natureza

“Vá brincar lá fora” é uma coisa que poucas mães que vivem na área urbana podem se dar ao luxo de dizer. Até porque o “lá fora” costuma ser um lugar árido, barulhento e, dependendo do ponto de vista, perigoso. Pegar o carro – ou metrô, ônibus, uber – para ir até um parque acaba virando um projeto adiado, um sonho, um evento isolado, primeiro por falta de tempo e a longo prazo, por falta de hábito.

O resultado são crianças apegadas aos desenhos animados, jogos eletrônicos, computadores. O amor pelas telas é tão grande que um estudo realizado em 11 países por uma marca multinacional de produtos de limpeza mostrou que 58% das mães acreditam que, se tivesse uma hora extra por dia, seu filho preferiria brincar dentro de casa.

Claro que não dá para querer que a geração atual viva como as anteriores mas pisar na grama, mexer na terra, comer frutas diretamente do pé e respirar ar puro podem se tornar coisas vistas apenas em livros e filmes para muitos dos nascidos hoje em dia. Isso seria ruim tanto em termos de conexão com o mundo – conhecer a estrutura natural das coisas, a organização dos insetos, as texturas, o cheiro, o ciclo de crescimento das plantas e assim por diante – quanto de saúde.

A teoria da Biofilia (que quer dizer  literalmente “amor pela vida”) foi proposta em 1984 pelo biólogo americano Edward Wilson. Ele dizia que o homem foi, em sua evolução, “programado” para amar tudo o que é vivo, portanto a natureza simplesmente nos faz sentir melhor.

Neste mesmo ano Roger Ulrich, cientista da Pensilvânia (EUA), comparou pacientes de um mesmo hospital em quartos com janelas voltadas para árvores com outros em quartos com vista para uma parede de tijolos. Aqueles cuja vista era verde saíram mais cedo do hospital, tomaram menos quantidade ou doses menores de analgésicos, tiveram menos complicações pós-cirúrgicas e reclamaram menos do atendimento.

Mais recentemente, no ano 2000, um estudo da norueguesa Tove Fjeld mostrou que após um escritório ser decorado com plantas as reclamações sobre dores de garganta dos funcionários diminuíram 23%.

Em Amsterdã a pesquisadora Jolanda Maas acompanhou 350 mil pessoas e concluiu que quem vive próximo à natureza tem 21% menos chances de desenvolver depressão.

No Japão a questão foi levada tão a sério que diversos grupos de estudos foram montados para que o contato com a natureza seja abraçado pelo governo como questão de saúde pública. Pesquisadores da Universidade de Chiba mostraram que depois do segundo dia passeando em uma floresta, um grupo de pessoas que vivia em um centro urbano teve um aumento de 56% nas células de defesa do organismo (glóbulos brancos), sendo que um mês depois ainda mantinham 23% deste resultado.

Isso quer dizer que viver em contato com a natureza é ótimo, mas que excursões frequentes já são o suficiente para trazer grandes benefícios. Pode ser uma ida ao parque, à praia, à fazenda ou até uma brincadeira num jardim.

Um estudo realizado na Universidade de Essex mostra que as maiores alterações benéficas pelo contato com a natureza foram vistas em jovens e em pessoas com distúrbios mentais, embora pessoas de todas as idades e grupos sociais sejam claramente beneficiadas. Foram analisadas atividades como caminhar, jardinagem, ciclismo, pesca, canoagem, equitação e da agricultura e os efeitos mais positivos na saúde e auto-estima das pessoas vêm já nos primeiros 5 minutos. Para a saúde, todos os ambientes naturais influenciaram positivamente, incluindo parques em áreas urbanas, mas as áreas verdes com água foram ainda mais benéficas. Sabendo disso, não há mais desculpa para adiar aquele fim de semana no parque em família, não é mesmo?

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