Livre Brincar

(foto: ​Carol Esmanhotto @estudioitka)

Depois que as crianças crescem, fica fácil ver do que elas gostam, como é seu jeito de fazer as coisas. Mas no começo, principalmente com o primeiro filho, é comum os pais ficarem cheios de dúvidas: como eu brinco com esta criança? Será que estou participando o suficiente? E a escola, está dando os estímulos necessários? Será que ela estará preparada para o mundo? Existem várias formas de pensar esses assuntos, e eles estão constantemente em pauta aqui na Casa de Viver. Esta semana conversamos com a Giovana Barbosa de Souza, da Aliança pela Infância, para que ela desse seu parecer sobre a questão.

Giovana atua na Aliança desde 2003, como voluntária e, a partir de 2009, como gestora nacional. Em 2008, participou da criação dos Indicadores de Qualidade da Educação Infantil, junto com o MEC, Ação Educativa e UNICEF. Fez parte do Grupo Gestor da Rede Nacional Primeira Infância (RNPI) de 2009 a 2013 e é uma das seis brasileiras indicadas como Global Leaders pelo Fórum Mundial sobre Cuidados e Educação Precoce. Membro do Conselho Internacional da Alliance for Childhood.

Casa de Viver: O que é a Aliança pela Infância e o que ela faz ativamente no Brasil?

Giovana: A Aliança pela infância é um movimento que começou na Inglaterra a partir de um grupo de pessoas muito comprometidas a preservar o tempo de infância, independentemente de classe social ou país. Aqui no Brasil a Aliança chegou em 2001 trazida por Ute Craemer, uma pedagoga Waldorf. A proposta é haver fluidez, ou seja, ela conversou com profissionais de diferentes áreas para trabalharem juntos e somarem esforços para defender o tempo da infância dentro do contexto brasileiro. Trabalhamos alinhados com a Unicef, focando dos zero aos 12 anos. São quase dois setênios. (Nota: A Aliança pela Infância é baseada em pilares filosóficos da Antroposofia  e portanto da Pedagogia Waldorf, que consideram que o desenvolvimento humano acontece em ciclos de 7 anos). Trabalhamos com projetos focados no brincar e na saúde. Quando chegamos (início dos anos 2000) não havia tanto conhecimento técnico sobre o brincar, então pudemos discutir isso e criar cursos específicos de formação de professores e multiplicadores para essa área. Na área da saúde trouxemos as questões do parto humanizado e da amamentação.

CdV: O que seria o brincar?
G: Na aliança falamos sobre um brincar específico, que é o brincar livre em oposição ao brincar dirigido. Esse é o nosso maior desafio. O Brasil tem leis maravilhosas, o brincar é contemplado na formação de professores, nas diretrizes curriculares, é um dos indicadores de qualidade de educação infantil, então é muito bem amarrado. O problema é que no ambiente de escola os adultos acabam querendo trazer o brincar para a questão do aprendizado. E a gente acha que brincar é tempo livre.  A criança tem que ter prazer naquela atividade, sendo um compromisso apenas consigo mesma. Brincar é coisa séria. Ela está explorando e descobrindo o universo de formas que vão muito além da fala.

CdV: O excesso de informação então seria contraindicado nessa fase?
G: Tanto para os pais como para as crianças. A impressão que eu tenho é que temos tanta informação produzida que não damos mais conta. Ficamos numa fissura do mental, acumulando informação e não conseguimos trazer isso para a vida. Só que a gente é um conjunto de coisas, a gente não e só informação. E a criança está num momento da vida em que está apenas chegando na Terra, e a gente esquece das percepções, das sensações, do descobrir, que aquela brincadeira tem uma função. Pisar na grama, sentir a terra, a chuva, tudo isso acaba sendo negado porque é perigoso, suja, faz mal, e a criança acaba tendo apenas estímulos mentais, o físico fica limitado. Só que a criança nasce num sistema que engloba tudo isso, e temos que permitir que ela tenha acesso a tudo. A relação dela com o mundo se dará por forma de brincar, então temos que permitir ao máximo essa experiência, esse tempo.

CdV: Como lidar com o brincar dirigido – o jeito certo de fazer, a busca de um objetivo, a competição – que acaba sendo regra na escola e até em festinhas hoje em dia? Como libertar a criança quando ela já está condicionada a ser instruída e/ou a buscar um resultado?
G: Esse é o grande desafio da Aliança porque o adulto faz sem perceber. Quando organizamos a Semana do Brincar, todo mundo queria trazer uma atividade dirigida. Eu acredito que isso só muda nas escolas quando se trabalha diretamente com os educadores. Olhando para eles, conversando com eles, investindo em formação de profissionais. Tem uma história que sempre conto nos workshops, que é assim: Joãozinho vai para a escola e aprende a desenhar uma flor copiando um modelo dado pela professora, pontilhado, ele só precisa desenhar por cima. Aí ele muda de escola, a professora dá uma folha em branco e diz – desenhe uma flor – Joãozinho entrega a folha em branco porque só sabe fazer se houver um modelo. Uma criança que foi criada assim merece e carece de desenvolvimento de confiança. O pai ou cuidador deve estimular, perguntar como ela quer fazer, apreciar o resultado sem fingimento. Se não entendeu um desenho, pergunte o que é, mostre interesse pelo modo daquela criança fazer as coisas. A questão da apreciação constrói confiança. A criança que recebe elogios, que a família agradece os esforços, reconhece o valor do que ela faz, é uma criança que aprende a se colocar, que tem espontaneidade. Não podemos deixar morrer essa espontaneidade.

CdV: E em casa, o que os pais podem fazer?
G: Em casa o que os pais podem fazer é deixar a criança brincar e só ficar perto, trabalhar como um mediador, estimulá-la a fazer do seu jeito. Eu ouço muitas mães dizendo que não sabem brincar com seus filhos ou que não gostam de brincar com crianças, e se sentindo extremamente aflitas e culpadas por isso. Mas elas não têm que brincar com as crianças! Elas têm que estar junto, presentes, só. Eu sempre digo isso, fiquem perto e deixem a criança brincar. Medie a brincadeira, apenas. Mediar é: quando a criança pergunta, responda. Se pedir ajuda, ajude – ou estimule a fazer sozinha, se achar que ela consegue. Pergunte como ela gostaria de fazer e aprecie o resultado.

CdV: Como os pais podem fazer isso numa realidade de trabalho de 8 a 10 horas por dia?
G: A vida em centros urbanos tem por característica pouca disponibilidade de tempo para pais e filhos passarem juntos, então no desespero de suprir essa falta muitas mães acabam inventando a brincadeira, montando a casinha, fazendo o desenho, enfim, fazendo tudo pela criança. Isso não é necessário. Claro que é muito importante que sempre que possível a criança fique perto da mãe. Mas que ela seja livre também nesses momentos, que possa fazer do seu jeito, sem que o pai ou a mãe interfiram para mostrar o jeito que eles consideram certo. Nas escolas isso é mais complicado porque a professora está lidando com diversas crianças ao mesmo tempo, mas não é só a escola a responsável pelo estilo de vida da criança. Muitas vezes os pais, preocupados em dar ferramentas para o filho, acabam colocando no inglês, na natação, no espanhol e não deixam ela com tempo livre para construir suas próprias ferramentas para lidar com o mundo.

CdV: No Brasil vende-se muito o modelo construtivista. De escolas mais livres às mais tradicionais, quase todas citam o construtivismo no currículo escolar. O que seria o construtivismo, quais suas vantagens e quais seriam outras alternativas?
G: Vou te dizer uma coisa sobre o Brasil: construtivismo é uma linha pedagógica baseada na construção do conhecimento. Tem toda uma metodologia, como existem outras metodologias pedagógicas. Esta é tão citada porque nos anos 80 virou moda, foi uma epidemia. Mas eu vejo outras modas aparecendo agora. As famílias precisam saber que elas têm que ler projetos pedagógicos antes de colocar os filhos em uma determinada escola e as famílias precisam ter critérios para escolher escola. E isso a gente não tem. Isso é muito mais sério do que a palavra construtivista mal utilizada.

CdV: Como os pais que dependem de escola pública ou da escola que conseguem pagar podem lidar com isso, sendo que não ha variedade de pedagogias nem abertura para discussão de metodologia?
G: Acredito que uma família de classe média que tem condições de procurar uma escola paga deve ler e olhar o projeto pedagógico e refletir e discutir se aquela é a melhor para aquela família – para a identidade daquela família que eles estão construindo. Mas eu não vejo isso acontecendo nem nas famílias de classe média e em nenhuma de forma geral. Só lendo o projeto pedagógico você saberá se ele é construído por uma pedagogia que se diz construtivista, ou Waldorf, ou Reggio Emilia… ou para os bebês, se tem os fundamentos da Pikler… Se você não lê o projeto pedagógico e se informa sobre como ele funciona você cai nessas armadilhas, o construtivismo ou qualquer outro projeto não sai da palavra, fica no modismo.

CdV: E quando a escola possível financeiramente não bate com a metodologia que te agrada, como compensar?
G: Essa é a pergunta do momento, e a resposta é: você tem que estar presente. O problema que vejo é que estar presente no momento real é muito pesado, afinal os pais ainda têm a vida em casal, o trabalho, os outros filhos, o lazer… mas o único jeito de lidar com isso é estar presente, acompanhar, sentar com o filho, ouvir o que ele fala. A criança que tem de zero a seis anos não se expressa tão bem, mas ao deixar essa criança brincar, observar seu comportamento, pois no brincar você consegue perceber aquilo que ela está falando e como ela está no mundo, quais os elementos do contexto da vida dela.

CdV: Falando sobre algo que se vê muito hoje em dia: qual a utilidade da alfabetização precoce das crianças, da introdução à matemática, enfim de haver apostila antes dos 7 anos?
G: Nenhuma. Em 2010, houve um senador que propôs um projeto que dizia que todas as crianças deveriam ser alfabetizadas com 3 anos de idade. Foi uma briga muito grande de ONGs e entidades de defesa da infância para não deixar esse projeto passar, e felizmente conseguimos.

CdV: Como isso prejudica a criança?
G: A criança tem que explorar seus potenciais. Cada criança é uma criança, e nessa fase da vida uma das grandes belezas é a questão da construção da identidade. É a fase em que você descobre o que gosta ou não gosta, se você é destro ou canhoto, e descobrir sendo fragmentado e classificado por seus resultados? Esse problema surge por conta da sociedade capitalista, na qual é preciso dar função para tudo que é feito, então são criados esses sistemas que medem o desempenho do aluno e do professor. Mas pelas diretrizes da pré-escola infantil no Brasil o que deve ser oferecido nesta fase – até os 6 anos – é apenas o brincar livre. Um bom professor é o que presta atenção na criança e que entende a curiosidade dela, ou usa as atividades propostas para que as crianças façam perguntas e que juntos respondam àquelas perguntas.

CdV: E se a criança já passou o primeiro setênio em uma escola tradicional, com apostila, e os pais decidem mudar e colocá-la em uma escola alternativa, onde o conhecimento adquirido será guiado por sua curiosidade? Essa criança terá ferramentas para acompanhar algo mais livre? Ou ao contrário, se a criança brincou livremente até os seis anos, ela conseguirá não ser “aprisionada” pela ideia única de se preparar para o vestibular em uma escola tradicional depois?
G: Respondendo sobre o segundo caso, teoricamente sim, com sete anos para a frente ela já se vira. Para a Antroposofia a troca de dentes é quando você pode passar para o conteúdo teórico, esse seria o sinal que você tem no corpo do seu filho de que ele está pronto para a alfabetização, o que seria por volta dos sete anos. As outras linhas pedagógicas, inclusive o construtivismo, trabalham com o oposto, ou seja, 7 anos é o limite para a criança ter aprendido. Mas nós da Aliança acreditamos que em qualquer escola essa mudança acaba sendo muito abrupta. Até os 6 anos a criança fica num espaço colorido, tem brinquedos, pode fazer as coisas com calma. De repente ela está enfileirada numa classe com mais 30 crianças, tem que ficar sentada, não pode conversar, o intervalo é minúsculo. O ideal seria ter um tempo lúdico até os 12 anos, quando ela ainda é considerada criança.

CdV: Falando em crianças mais velhas, existe alguma diferença de experiência entre  usar livro didático ou apostila? O livro seria mais edificante de alguma forma?
G: A função é a mesma. A diferença é que o livro, por ser mais específico, pode trazer mais informação, o que é interessante para a criança que tem curiosidade sobre aquele assunto. A apostila dá segurança para o professor sobre como conduzir a aula. E o que acaba acontecendo é uma massificação do ensino, dois ou três grupos que fazem apostilas usadas no país todo usando um método que mistura diversas pedagogias. Isso acontece porque as escolas se sentem inseguras sobre o que ensinar e sobre como avaliar o rendimento dos alunos. O modelo original de ensino no Brasil era o Europeu. Mas isso não se relacionava com a nossa realidade, nossa cultura é diferente, a fauna e a flora são diferentes, nossa forma de nos relacionar com as pessoas e o mundo é outra. Então surge a busca por algo que se adeque melhor, mas  ela não é acompanhada por formação adequada dos educadores. Essa insegurança leva às apostilas.

CdV: Então se nenhum dos métodos  que temos em oferta atualmente é ideal, ou quando se aproxima do que os pais gostariam o preço torna inviável, o que nós, pais, podemos oferecer para que essa criança tenha as ferramentas que precisa para se realizar pessoalmente na vida? Do que essa criança realmente precisa para ter uma primeira infância plena, quais as ferramentas, atividades, espaços e estímulos?
G: Amor. Se uma criança é amada e tem alguém que acompanha o desenvolvimento dela, ela vai ter atenção. Os espaços serão acolhedores para ela, haverá estimulo adequado para aquela criança, apreciação, elogio. Se a criança tem um adulto que presta atenção nela, isso está garantido. Agora a questão real é para esse adulto. Ele precisa exercitar o que o Steiner chama de Autoridade Amorosa, que é qualidade de presença. Não dizer não para tudo nem sim para tudo. Esse adulto proporcionará atividades variadas para a criança, vendo por exemplo quando levar para jogar bola uma criança que passa muito tempo lendo, oferecendo todos os tipos de estímulo que ela precisa, sabendo botar limites. E enfatizando que crianças não aprendem pela fala, aprendem pelo exemplo. Tem que ter energia, é uma demanda enorme, o adulto precisa ter energia para estar presente, para entender a demanda daquela criança específica. Não há fórmula. Estar presente é viver o amor.

CdV: Como lidar com as telas, que acabam sendo grandes aliadas das mães que muitas vezes não têm o tempo nem a energia para acompanhar as brincadeiras dos filhos?
G: A média diária das crianças em frente à TV caiu do ano passado para este, foi de 6 horas para cinco horas e meia. Não sei se isso quer dizer menos TV ou mais presença de outras telas como tablet e celular, mas de qualquer forma a TV não é um demônio. Claro que brincar é melhor, mas algum tempo de tela não irá destruir a vida da criança, o contato com a tecnologia é o mundo de hoje. O que precisa é haver acompanhamento dos pais para o que está sendo assistido. Comerciais são muito ruins e programação não específica para a idade também é ruim. Há um estudo feito na Califórnia que mostra que mesmo telas em lugares públicos, como restaurante ou sala de espera, influenciam no comportamento da criança. Ela está prestando atenção e pode imitar o que vê, seja um comportamento mais sexualizado ou violento, então o importante é haver curadoria e se possível companhia de um adulto nessas horas.

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