Crianças se desenvolvem melhor na natureza

Na semana passada, a Casa de Viver recebeu Paula Mendonça para uma conversa sobre a relação das crianças com a natureza. Paula é Mestranda em Educação pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre cultura da criança. Atuou cerca de 10 anos no Parque do Xingu por meio do Instituto Socioambiental e é assessora pedagógica do Projeto Criança e Natureza do Instituto Alana. Leia os melhores momentos dessa conversa abaixo:

Infância emparedada

As crianças ficam pouco ao ar livre, ainda mais quem mora em apartamento. Isso representa uma descontinuidade do corpo com a natureza, que seria algo natural para a criança – sentir que ela faz parte da natureza. Isso é inato, a criança nasce com essa sensação de fazer parte e vai perdendo com os limites físicos colocados pela rotina.
A criança que tem uma rotina cheia de atividades dirigidas – natação inglês, etc. – está sempre dividida dos impulsos naturais, por isso acaba perdendo a capacidade de sentir o que ela deseja, se quer brincar, ficar quieta, sozinha ou com os outros. Então esse tempo livre em contato com a natureza é muito importante não só para conectar com o mundo, mas para ter compreensão de si mesma.

Miopia

Há diversos estudos que relacionam a miopia precoce com o uso de telas até 3 anos  de idade. Essa é uma fase crucial de desenvolvimento dos olhos, e só olhando perto perde-se a capacidade de enxergar longe. Isso também limita a capacidade de olhar o horizonte.

Limites

O encurtamento do horizonte, metaforicamente falando, também acontece nas escolas onde o desenvolvimento cognitivo é supervalorizado em detrimento do desenvolvimento físico. Até os sete anos o jeito que a criança se expressa no mundo é através do brincar, e as escolas carecem de desafios para esse aspecto. O espaço é muito controlado e as atividades dirigidas. Não há exploração nem ampliação de limites pois não há desafios. É a cultura do EVA, que impede a criança de crescer. Não há desnível, não há textura, temperatura. É tudo sempre igual.

Telas

O tempo livre hoje tem um contorno muito forte de telas. Se a criança não tem nenhuma obrigação para fazer ela pega o tablet, o celular, liga a TV “para dar uma descansadinha”. Essa é uma questão absolutamente dessa geração. Não havia celular, não havia TV a cabo com desenho o dia inteiro, videogame era ATARI. Então as crianças de hoje têm outra relação com a tecnologia, independente de classe social. E já está ficando visível como isso tem impactado na infância, de maneira positiva, sim, mas também de maneira negativa. A média te tempo que as crianças brasileiras passam em frente às telas é estimada em 5,5 horas por  dia, sem contar as escolas que também dão tela. Isso representa 50% do tempo que ela passa acordada. Frente a essa leitura do mundo, da escola, da família, da cidade, se percebeu que o contato com a natureza não está acontecendo de forma espontânea. Se nós não tivermos a intenção de fazê-lo acontecer ele simplesmente não acontecerá.

Transtorno de Déficit de Natureza

A falta de espaço e o excesso de telas têm causado o Transtorno de Déficit de Natureza, termo cunhado pelo escritor americano Richard Louv. Ele compilou uma série de pesquisas num livro chamado “A Última Criança na Natureza”, onde o aumento de diversas doenças infantis – obesidade, miopia, diabetes, colesterol, é relacionado com a diminuição do contato espontâneo com a natureza. No Brasil temos 30% das crianças acima do peso, muito por alimentação desbalanceada mas também por falta de alimentação e exercício. O Brasil é o segundo maior consumidor de remédios pediátricos do mundo, perde apenas para os Estados Unidos. Isso deixa evidente com o a infância está sendo medicalizada. Então só porque a criança fica agitada porque não aguenta ficar confinada ela é taxada como hiperativa e medicada. É uma negação violentíssima da natureza da criança, que é exatamente ser ativa e usar o corpo. É por isso que há uma recomendação da Organização Mundial de Saúde de não se usar telas para crianças.

Revertendo o quadro

O que o Alana vê como uma maneira de reverter esse quadro é a valorização do livre brincar ao ar livre. Então a gente têm se embasado em pesquisas que falam o quanto esse contato com a natureza estimula o desenvolvimento integral da criança, em todos os aspectos dela. Então um pouco falando de cada um. No aspecto físico, só estar ao ar livre já inspira a sensação de liberdade. A natureza propõe corre, pular escalar, coisas que só de estar ao ar livre já são ativadas. Também há texturas, cheiros, organismos vivos, além da contemplação do belo, que é um alimento para a alma. A natureza é uma matriz pacificadora, pois nos faz entrar em conexão com o ritmo natural das coisas e de nós mesmos. Isso vai munindo a autoestima e faz a criança se sentir mais capaz, mais segura e mais autoconfiante.
Quando uma criança vai, por exemplo, mexer numa plantinha num parque. O nível de concentração é total, ela está interessada, tem prazer em descobrir, em explorar, em descobrir coisas novas e novas possibilidades. Também há o estímulo à contemplação, à calma, à paciência, ao ritmo das coisas. A inteligência também é estimulada pela quantidade de coisas diferentes que ela vê e pela curiosidade natural da criança. Até a empatia ganha, pois presta-se mais atenção ao outro. Há ainda a capacidade imaginativa da criança que ganha muito, pois é um universo que ela pode imaginar com sua própria imaginação. São os brinquedos desestruturados, o graveto uma hora é uma espada, na outra uma pessoa, depois um carro, estimulando a capacidade criativa dela.
A desenvoltura também melhora. Se você está desde criança explorando limites da natureza você vai ter repertório para lidar com outros medos: de andar de bicicleta, de falar na sala de aula; e saberá interagir com o mundo e com os outros.

Local

As pessoas relacionam natureza com praia ou bosque, mas qualquer espaço verde já é o suficiente. Um quintal, uma pracinha, aquilo para as crianças é um mundo.
Companhia
O Alana criou uma ação que se chama Grupo Natureza em Família, que visa criar grupos de pessoas que morar próximas para cuidar dos espaços que há no bairro e criar eventos como piqueniques e tardes de brincadeiras para as crianças. Quem é filho único, mesmo tendo o espaço, pode acabar ficando desanimado de brincar por falta de companhia, e estar com outras crianças – e não só com os pais – é extremamente enriquecedor.

Brincar dirigido

Muitas vezes achamos que lazer é dar uma coisa para a criança fazer. Brincar de massinha, pintar. Mas isso é dirigir a atividade, o brincar livre é deixar a criança, espontaneamente, decidir o que vai fazer. Ela vai explorar, se sujar, sem ser reprimida e sem se importar com a sua opinião sobre o que ela está fazendo. A relação é dela com ela mesma, de autodescoberta e empoderamento. Por isso as escolas hoje em dia dificilmente atendem os requisitos de desenvolvimento integral. Porque os pais não querem que a criança se suje, se machuque, além disso esperam desenvolvimento apenas acadêmico. O resultado esperado é alfabetização precoce, nota alta, o que não diz nada sobre o desenvolvimento integral daquela pessoa. O que agrega uma criança de quatro anos saber copiar números de uma lousa, ou as letras do seu nome?

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