Pré Natal na França

Por Alessandra Ribeiro, psicanalista e autora do blog Barriga de Bebê

A França é um país onde cesariana é uma intervenção de emergência, usada apenas nas situações de emergência, em que o bebê não pode de fato nascer por parto normal. Não é como no Brasil, você não agenda uma cesariana porque não está a fim de parir, ou porque tem medo do parto ou porque teu obstetra te deu alguma desculpa esfarrapada para não ter que mexer na agenda ou perder o jogo de futebol do domingo. Aqui, parto normal é a regra e cesariana é a exceção. “Estar grávida não é estar doente”. Isso é dito a todo momento, por médicos e até por pessoas na rua. Apesar disso, o que se considera aqui como parto normal é um parto hospitalar, medicalizado, cheio de intervenções.

Ao contrário do que acontece em países onde a questão da gravidez e do parto recebe um tratamento muito mais humano e cientificamente muito mais avançado, como a Holanda, a Alemanha ou a Inglaterra, a França infelizmente anda na contramão do que mostram as evidências científicas no assunto, perseguindo ou dificultando a vida das enfermeiras obstétricas que fazem parto domiciliar e criando inúmeros entraves a alternativas como as casas de parto, como só a burocracia francesa consegue fazer. O atendimento à gestante, o pré-natal, segue a mesma linha.

Posso dizer que o meu pré-natal e parto foram em parte como é praxe aqui na França, e em parte não. Isso quer dizer que eu procurei todas as brechas que poderia encontrar no sistema e as usei para ter o acompanhamento mais próximo daquilo que gostaria.

Quando o teste de farmácia dá positivo, o caminho das pedras começa: você procura seu clínico geral – aqui a referência ainda é o médico de família – que pede um teste de sangue para confirmar a gravidez. Ele te dá um atestado que você vai enviar para a seguridade social, para seu convênio e para seu empregador, para garantir seus direitos a licença, reembolsos e afins. A partir daí, você precisa escolher como vai querer acompanhar a gravidez. Pode ser com esse clínico geral, com um ginecologista ou com uma enfermeira obstétrica particular. Ou então com algum desses profissionais da equipe da maternidade onde você vai parir.

Aqui não existe essa relação personalizada com um médico que vai te seguir durante toda gravidez e parto. Você se inscreve numa maternidade – pode até ser aquela em que seu médico trabalha – e no dia D o parto vai ser feito por um dos plantonistas. As chances de que seja justamente o seu médico são bem pequenas.
Além disso, quem faz o parto são as sage-femmes, as enfermeiras obstétricas. Então o parto vai ser feito pela sage-femme de plantão no dia. Na maior parte das maternidades, o médico é chamado apenas se houver um problema. Noutras, ele é chamado para o expulsivo, apenas para dar um “oi” e receber o cheque. Tudo é reembolsado pelo governo.

Nas cidades grandes, desde que se descobre a gravidez, é urgente se inscrever numa maternidade. Elas são lotadas e, dependendo do que você queira – por exemplo, se quiser parir numa maternidade menor, ao invés de um grande hospital ou se quiser um lugar mais ligado ao parto humanizado, o que é raro – precisa correr e garantir sua vaga.
Na primeira gravidez fiz todo o acompanhamento em Paris, pois só vim para o sul no final e dei à luz aqui. Então, escolhi o local mais próximo à minha casa para o acompanhamento, sabendo que não iria dar à luz ali. Um hospital imenso. O acompanhamento foi o tradicional, com as sage-femmes que atendem no local. Recusei todos os exames que eram opcionais.

Chegando ao sul (nota da editora: Alessandra mora em uma cidade próxima a Montpellier), o acompanhamento era com o ginecologista-obstetra da maternidade. Não tive muita escolha, mas tomei o cuidado de escolher bem a maternidade, uma que tivesse espaço para parto natural, sem intervenções. Não é muito comum na França um parto natural. As pessoas falam em parto normal e já pensam obrigatoriamente em anestesia, bolsa perfurada, ocitocina sintética… Mas em alguns locais é possível. Então, me preocupei em escolher o local, me informar e deixar bem claro para a equipe que eu não queria mesmo intervenção nenhuma.
O parto dela foi rápido, umas 5 horas entre bolsa romper e ela nascer. E não teve anestesia, indução, puxo orientado, nada. Foi um parto muito bonito e respeitoso.

Para o segundinho eu queria um parto domiciliar. Para que ir à maternidade se eu sabia parir? O problema é que aqui, na minha região, já não há mais nenhuma sage-femme que faça parto em casa. Preferi não fazer um parto desassistido e fui para a mesma maternidade, que continua sendo a mais próxima do que eu queria. Mudei de médico para o mais humanizado daquela equipe e o pré-natal foi feito com ele. Novamente, recusei todas as intervenções que pude durante a gravidez. E novamente tive um parto natural, sem intervenções. Um pouco mais longo que o primeiro – 8 horas, pois a bolsa só rompeu no final – e também muito intenso e diferente. A gente vai para o segundo achando que já sabe como é, mas nunca sabe. Tem sempre um quê de desconhecido.

Gostei muito dos dois partos. Foram muito felizes. Escrevi sobre os dois no blog. Acho relatos de parto emocionantes e importantes. No Brasil, já somos a segunda geração com grandes chances de parir via cesariana, estatisticamente falando. Perdemos o contato com o parto, com o que é parir. Por isso os relatos são importantes. Para mostrar que é possível, que é para todas nós e que, com raríssimas exceções, dá certo e marca a gente para sempre.

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One thought on “Ter e criar filhos na França: Pré-Natal e Parto

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