Como sair das dívidas e organizar as finanças?

O título aqui em cima não é uma pergunta retórica. Como fazer isso?

Venho tentando responder a essa pergunta há pelo menos três anos, e embora eu tenha feito alguns progressos, sei que ainda não resolvi essa questão.

Sair do emprego, empreender, passar pela crise mais braba do país dos últimos tempos, e triplicar o número de filhos, tudo isso teve e tem um peso sobre as finanças da família, obviamente.

Mas uma coisa que tenho aprendido, meio que na porrada, é que às vezes, no desespero de resolver os problemas, não conseguimos parar e ver o panorama completo, o que nos impede de ver as relações de causa e efeito entre as situações que estamos enfrentando e as escolhas que as causaram. E sem entender essas relações, pode ser mais difícil resolver os problemas que se apresentam.

O livro “Design the Life You Love“, de Ayse Birsel, propõe o exercício de desconstruir a vida em blocos, criando um mapa.

Desde que decidi sair do emprego no fim de 2014, as coisas aconteceram muito rápido. Três anos depois, eu tinha 3 vezes mais filhos (passei de uma para três), era sócia de uma empresa, e tinha acumulado uma dívida de milhares de reais.

O que tenho feito para reverter essa situação?

Tenho dados passinhos de bebê, na verdade.

Já renegociei dívidas com a ajuda do Programa de Apoio ao Superendividado (PAS) do Procon. Já vendi o carro. Já mudei para um apartamento menor. Saí da sociedade e voltei a ser freelancer.

Mas depois disso, já contraí novas dívidas. Comprei outro carro. Mudei para um apartamento maior. 

E por que ainda não consegui resolver essas questões? Porque tomei decisões sem olhar e entender de verdade o panorama geral.

E entender o panorama geral é conhecer de uma forma realista quais são as suas necessidades e as necessidades da sua família, para poder desenhar a linha que vai proteger o seu bem-estar financeiro.

O que eu quero dizer com isso? Em termos práticos, quer dizer que, para não entrar no fundo do poço financeiro – e para sair dele – você tem que saber exatamente quanto dinheiro você precisa para manter o estilo de vida do qual você não abre mão, mas de uma forma realista.

A minha grande revelação dos últimos tempos é a seguinte:

Planeje seus ganhos no cenário mais otimista. Mas planeje seus gastos no cenário mais pessimista.

E onde foi que eu errei? Eu planejei tudo no cenário mais otimista, e muito por conta de não ter examinado quais são as necessidades reais da minha família. E de não ter feito alterações coordenadas. Por exemplo:

1. Renegociação das dívidas

Eu super recomendo o PAS do Procon, porque ele tem uma parte educativa, que mostra o óbvio: você não pode gastar mais do que tem. Através do programa, os bancos renegociam a sua dívida com juros bem baixos, mas cortam o seu crédito. Ou seja, você passa a não dispor de coisas como limite de cheque especial e cartão de crédito.

Só que para sobreviver assim, você tem que mudar seus padrões de forma a não precisar de mais dinheiro do que você ganha. 

E foi aí que eu errei, já que eu continuei trabalhando em tempo integral na minha empresa, sem ganhar nada. Ou seja, a situação que me colocou no superendividamento continuou a existir, e por isso eu precisei de crédito de novo, o que quer dizer que gastei um dinheiro que não era meu, o que resultou em uma nova dívida, juros altos, etc.

2. Vender carro/comprar carro

Vender o carro foi uma atitude acertada, em 2016, porque naquele momento significou uma economia com o financiamento do carro, combustível, estacionamento. Naquele momento, eu conseguia ir a pé para a empresa (que era um coworking familiar, portanto eu ia com as crianças, uma na barriga e duas fora).

Só que uma hora o bebê nasceu, como eu já deveria imaginar que ia acontecer. E mais, a minha empresa se mudou para mais longe da minha casa. E aí eu não dava conta de ir a pé, com três crianças, bolsas de roupa e fraldas, marmitas, laptop. 

Então passei a usar os serviços de transporte de aplicativos. Não era prático, e lembra que eu não ganhava dinheiro? Pois é.

No fim, comprei outro carro. Só que pouco depois saí da sociedade e passei a trabalhar em casa. Se eu tivesse pensado melhor, de uma forma mais abrangente, eu talvez não precisasse assumir mais essa dívida, porque estava começando a retomar minha carreira de tradutora freelancer, e não dava para contar com uma renda que eu não sabia qual seria.

3. Mudar para um apartamento menor

Essa decisão foi totalmente por desconhecimento das necessidades reais da família (OK, foi isso e um baita desespero para diminuir os gastos). O tal apartamento menor era um apartamento de 37 m2 onde eu morava quando era separada e tinha só uma filha.

Agora somos 5 pessoas. Uma gata. Dois carros (e o apartamento não tem vaga de garagem).

Avaliar as necessidades da família é saber o que é necessário para o bem-estar de todos, e isso é muito pessoal. Para algumas famílias, em termos de moradia, mudar de bairro e até de cidade pode ser uma opção, e para outras não. O importante é ter a clareza para saber o que é viável e o que não é. E se sua família não cabe em um apartamento de 37 m2, você precisa encontrar outras formas de reduzir seus gastos.

4. Sair da empresa/ser freelancer

Aqui, vale um ensinamento da aceleração da Yunus Negócios Sociais que eu demorei para aprender. Eles disseram para nós – na época éramos 3 sócias da empresa – que era importante conhecer o nosso limite pessoal: até onde estávamos dispostas a nos sacrificar pelo negócio. 

Confesso que estabelecer limites pessoais é uma das minhas maiores dificuldades – como é para muitas mulheres. Lembro que em agosto de 2015, sete meses depois de abrir a empresa, estabeleci o meu primeiro limite: eu não colocaria mais dinheiro meu na empresa – até porque eu já tinha colocado tudo o que eu tinha, e o que eu não tinha também. 

Mas faltou eu colocar um outro limite, aquele que eu poderia ter entendido se tivesse estabelecido qual o mínimo inegociável de receita que a minha família precisava, ou seja, que eu não poderia devotar todo o meu tempo a um trabalho não remunerado.

E eu precisei passar por vários novos baques, como ser assaltada com uma arma apontada para mim enquanto eu tirava as crianças do carro – que já não tinha seguro – e além do trauma, perder dois laptops, três celulares, e outras coisas que eu não conseguiria repor, porque, né, eu não tinha renda.

Foi só aí que eu percebi que, com uma família de 5 pessoas, eu tinha passado do meu limite de trabalhar sem receber nada. Só que aí, eu já tinha uma dívida de R$ 100 mil reais para pagar, além das contas de todos os meses.

5. Colocar os filhos na escola particular/na escola pública

Quando saí da minha empresa e voltei a ser freelancer, eu podia trabalhar em casa, o que é lindo, né? Não com 3 crianças querendo a sua atenção. Afinal, foi por isso que eu idealizei o primeiro coworking familiar do Brasil. Só que agora eu não podia mais contar com ele. 

Desesperada para trabalhar e voltar a ter renda, coloquei os dois pequenos na mesma escola em que minha filha mais velha já estudava.

Mas, péra, como é que eu ia pagar? Então…

Neste um ano e meio desde que eu coloquei eles na escola, já teve de tudo um pouco: minha mãe pagou a escola vários meses, eu atrasei o pagamento outros tantos, e a escola me fez um desconto super bacana, pelo que serei eternamente grata. 

Só que mesmo assim, a conta ainda não fecha. De novo, aquele meu planejamento otimista foi uma furada.

Eu contava com uma retomada mais rápida da minha carreira e até da economia. Só que não dá para contar com o que não depende só de nós, né?

Qual seria decisão mais acertada? Colocá-los na escola pública. É um mundo diferente, que vamos precisar aprender a navegar, desde a oferta de vagas, a espera até chamar, a forma como a coisa toda funciona.

Qual a conclusão de tudo isso?

Bem, eu sei que não sei tudo. Mas agora eu sei que, se eu quero ter um futuro mais tranquilo, eu preciso tomar agora decisões mais realistas. Não contar com o que é totalmente incerto. E entender do que realmente precisamos e do que podemos prescindir.

Simplificar, viver mais no real, um dia de cada vez. Contar as nossas bênçãos, e não o que aparentemente nos falta.

Vou novamente vender o carro – um carro que não condizia com a nossa realidade. As crianças vão para a escola pública, aqui perto, onde posso levá-las a pé. Não vamos nos mudar de bairro, porque hoje, isso não é uma opção, por diversos fatores.

Eu não desisti das minhas metas. Empreender está no meu sangue, e aos poucos vou construindo uma rede de tradutores, da forma mais condizente com os meus valores e com o que o mundo precisa. Minha meta é crescer. Mas acho que aprendi a não atropelar as coisas: ser realista e não contar com as minhas previsões ultra-otimistas, embora continue sempre perseguindo os melhores resultados e os meus sonhos.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *