Casa: o mundo é o nosso quintal

Tive a sorte de crescer em uma casa, daquelas que a gente desenha quando criança. Uma casa térrea, num terreno grande, com um quintalzão onde meus avós plantavam verduras, frutas, temperos e ervas e até alguns legumes.

Meu avô cuidava com amor de uma parreira de uvas verdes que abastecia os natais da família. No fundo do quintal, tínhamos uma mangueira. Tivemos uma amoreira e uma goiabeira também. Durante algum tempo, tivemos até um galinheiro lá bem no fundo do quintal.

Me lembro de comer tomatinho cereja do pé, marias-pretinhas, ramos de erva-doce, folhas de trevo (!). De ajudar meu avô a pegar minhocas para as galinhas e de ir com ele buscar esterco num terreno próximo para adubar as plantas da horta.

Lembro de brincar pelo quintal enquanto meus avós trabalhavam nas hortas. Lembro da minha avó tratando dos pulgões nas couves. Lembro de brincar de professora com os pés de couve como alunos, e de brincar de restaurante improvisado com o que eu achava pelo quintal 😂

Sinto que uma parte importante de mim ainda quer viver tudo isso, voltar àquele quintal de sonhos… mas a minha realidade hoje é bem diferente.

Então, como trazer de volta toda essa riqueza de sensações, essa força criativa/criadora, para mim e para os meus filhos, num apartamento no centro de uma cidade como São Paulo?

Intuo que a resposta tem a ver com viver de forma mais ampla a cidade, seus espaços públicos. Sair do modelo elitista de privatização da família, que na tentativa burguesa de garantir a preservação e a transmissão dos privilégios de classe, afastou as famílias do convívio das ruas.

É preciso agora fazer o caminho inverso, romper as barreiras de solidão e isolamento que nos afastam dos espaços onde não só podemos vivenciar o contato com a natureza, mas também podemos exercitar o convívio com a nossa comunidade mais ampla – as pessoas que já compartilham conosco dos mesmos espaços, do mesmo bairro, da mesma cidade.

Podemos colocar nossa energia vital a serviço da materialização de um futuro que atenda às necessidades de todos os seres. Há parques precisando do envolvimento da comunidade para poder continuar acolhendo nossas crianças e suas famílias, e as plantas e animais que neles vivem. Há hortas comunitárias urbanas precisando de braços para vicejar. Há espaços ociosos que podem acolher as pessoas e oferecer lazer, cultura, saúde, desde que a comunidade se mobilize para cuidar deles. Se sairmos de nossas casas e ocuparmos esses espaços, que já são nossos, que são de todos, a cidade oferecerá a todos acolhimento e nutrição em todos os níveis.

O nosso quintal está lá, basta sairmos para vivê-lo, com amor, respeito e de coração aberto para conviver com quem está ao nosso redor.

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